Acho que não concordo inteiramente com os comentários de ontem feito pela Sara. Gostei dela, gostei da expressão de seu rosto enquanto falava. Mas isto é apenas um atalho para eu começar uma arguição com ela. Mesmo sabendo que talvez ela não possa ler (acho que quem a conhece poderia enviar o endereço do blog), ela é uma ótima integrante/interlocutora para o grupo. Acho o teatro um campo no qual também vivo e imagino bem, como na conversa que invento e nas imagens que crio - tudo tem sido um teatro da imaginação. A imaginação é a memória enlouquecida. (Esta frase não é minha, mas me esqueci onde li). Tudo que tenho falado é 90% imaginação, só 10% é mentira. (Manoel de Barros) Vejam bem: acho que a proximidade entre os corpos, ontem, não precisou ser física. Aproximei-me muito dos corpos que desenhavam na galeria. Conheci, senti todos de um modo diferente do costumeiro. Claro que este comentário pode ser uma justificativa de minha neurose de infância, meio histérica e construída sem aproximações físicas - sou do interior, meio bruto, mas profundamente afetuoso. Sobretudo nesta fase da meia idade, mais para avó (como diz o Leon) do que pra tio, digo que a interação psíquica e artística que ocorreu lá na galeria foi imensa e íntima - mesmo sem a intimidade dos corpos. Gosto de uma sugestão que me foi dada pelas minhas leituras de Bachelard - Imensidão Íntima - foi o que ocorreu ontem. Desenhamos todos juntos e os registros ficaram, em mim, de um modo singular, imenso e íntimo. Eles transformaram a minha memória palimpsesto. Escrevi hoje, assim que acordei:
Se a minha memória pode ser comparada, como sugeriu Baudelaire, com a metáfora palimpsesto, ela é um palimpsesto labiríntico. Misturei Baudelaire com Borges. O sonho, desta noite, revelou-me um caminho que devo trilhar nesse meu labirinto de palimpsestos espalhado e espelhado na sala de gravura; sem tocar nos corpos, sem dar beijinhos formais ou apertos de mãos - coisa de gente educada - vou me aproximando de vcs sem afetações; a cada dia que passa mais em silêncio e guardando os meus segredos e medos nos vidros. Lembrem-se que aqueles vidros não são obras de arte, não fazem sentido em exposições, em galerias institucionalizadas, os sentidos deles estão sendo gerados a cada lugar daquela sala; em cada intervenção de uma mão de vcs que os muda de lugar, nasce um novo sentido. Tem coisa da Lygia Clark nesta ideia. A cada dia gosto mais do grupo sabadotempo, da sala, do que está sendo gerado lá.
Muito lindo professor, sobre os vidros também... agradeço por poder fazer parte do grupo, todas as palavras faladas e pensadas, e o modo em que fica tudo isso em mim.
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