segunda-feira, 27 de agosto de 2012
o fim...
Não se trata de propriamente o fim do grupo, mas achei melhor terminar com os encontros sabadotempo porque acho que está na hora de todos se concentrarem em suas próprias atividades. Mas, nada impedirá de o grupo se transformar... estou aberto às propostas. Claudio
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
"Éternel automne"
Philippe Soupault
Écraser les souvenirs comme des feuilles mortes
feuilles mortes couleur du crépuscule
déjà pourritures multicolores et nécessaires
auprès des arbres dépouillés
et qui doivent refleurir après un long silence
le long silence de l’espoir après le désespoir
toujours la même chanson la même saison
celle où l’on brûle les fleurs les fruits les feuilles
et toutes ces branches qu’il faudra couper
et les scier pour qu’on n’en parle plus jamais
plus jamais comme si rien n’avait été
et qui ne sera jamais plus enfin
enfin jamais plus puisqu’il faut finir
et qu’ainsi tout est pour le mieux
qu’on n’est plus obligé de choisir
choisir les fumées que dévorera le vent
toujours la même chanson la même saison
celle où l’on brûle les fleurs les fruits les feuilles
et toutes ces branches qu’il faudra couper
et les scier pour qu’on n’en parle plus jamais
plus jamais comme si rien n’avait été
et qui ne sera jamais plus enfin
enfin jamais plus puisqu’il faut finir
et qu’ainsi tout est pour le mieux
qu’on n’est plus obligé de choisir
choisir les fumées que dévorera le vent
"Tant de temps"
Philippe Soupault
Le temps qui passe
le temps qui ne passe pas
Le temps qui passe
le temps qui ne passe pas
le temps qu’on tue
le temps de compter jusqu’à dix
le temps qu’on n’a pas
le temps qu’il fait
le temps de s’ennuyer
le temps de rêver
le temps de l’agonie
le temps qu’on perd
le temps d’aimer
le temps des cerises
le mauvais temps
et le bon et le beau et le froid et le temps chaud
le temps de se retourner
le temps des adieux
le temps qu’il est bien temps
le temps qui n’est même pas
le temps de cligner de l’œil
le temps relatif
le temps de boire un coup
le temps d’attendre
le temps du bon bout
le temps de mourir
le temps qui ne se mesure pas
le temps de crier gare
le temps mort
et puis l’éternité
le temps de compter jusqu’à dix
le temps qu’on n’a pas
le temps qu’il fait
le temps de s’ennuyer
le temps de rêver
le temps de l’agonie
le temps qu’on perd
le temps d’aimer
le temps des cerises
le mauvais temps
et le bon et le beau et le froid et le temps chaud
le temps de se retourner
le temps des adieux
le temps qu’il est bien temps
le temps qui n’est même pas
le temps de cligner de l’œil
le temps relatif
le temps de boire un coup
le temps d’attendre
le temps du bon bout
le temps de mourir
le temps qui ne se mesure pas
le temps de crier gare
le temps mort
et puis l’éternité
sábado, 4 de agosto de 2012
projeto mala
A reunião foi ótima. Os detalhes e os prosseguimentos, eu conto depois. Fiz vários vídeos que serão editados para a próxima reunião do sabadotempo. abraço a todos, claudio
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
viagem Unicamp Mala
Estamos indo, o Elias já deve estar mais perto de São Paulo, eu me preparando aqui em Londrina e a Talita - a portadora da MALATEMPO - estará na estrada na madrugada de quinta. Boa viagem a todos nós. Abraço, claudio
terça-feira, 31 de julho de 2012
segunda-feira, 30 de julho de 2012
SOBRE O VÍDEO DO SABADOTEMPO
AQUELA LEGENDA DO MANOLO DEVE SAI. AH, TIVE UMA IDEIA AGORA, SERÁ QUE VAI DAR CERTO?
domingo, 29 de julho de 2012
domingo, 1 de julho de 2012
Sobre a performance, ainda...
Acho que não concordo inteiramente com os comentários de ontem feito pela Sara. Gostei dela, gostei da expressão de seu rosto enquanto falava. Mas isto é apenas um atalho para eu começar uma arguição com ela. Mesmo sabendo que talvez ela não possa ler (acho que quem a conhece poderia enviar o endereço do blog), ela é uma ótima integrante/interlocutora para o grupo. Acho o teatro um campo no qual também vivo e imagino bem, como na conversa que invento e nas imagens que crio - tudo tem sido um teatro da imaginação. A imaginação é a memória enlouquecida. (Esta frase não é minha, mas me esqueci onde li). Tudo que tenho falado é 90% imaginação, só 10% é mentira. (Manoel de Barros) Vejam bem: acho que a proximidade entre os corpos, ontem, não precisou ser física. Aproximei-me muito dos corpos que desenhavam na galeria. Conheci, senti todos de um modo diferente do costumeiro. Claro que este comentário pode ser uma justificativa de minha neurose de infância, meio histérica e construída sem aproximações físicas - sou do interior, meio bruto, mas profundamente afetuoso. Sobretudo nesta fase da meia idade, mais para avó (como diz o Leon) do que pra tio, digo que a interação psíquica e artística que ocorreu lá na galeria foi imensa e íntima - mesmo sem a intimidade dos corpos. Gosto de uma sugestão que me foi dada pelas minhas leituras de Bachelard - Imensidão Íntima - foi o que ocorreu ontem. Desenhamos todos juntos e os registros ficaram, em mim, de um modo singular, imenso e íntimo. Eles transformaram a minha memória palimpsesto. Escrevi hoje, assim que acordei:
Se a minha memória pode ser comparada, como sugeriu Baudelaire, com a metáfora palimpsesto, ela é um palimpsesto labiríntico. Misturei Baudelaire com Borges. O sonho, desta noite, revelou-me um caminho que devo trilhar nesse meu labirinto de palimpsestos espalhado e espelhado na sala de gravura; sem tocar nos corpos, sem dar beijinhos formais ou apertos de mãos - coisa de gente educada - vou me aproximando de vcs sem afetações; a cada dia que passa mais em silêncio e guardando os meus segredos e medos nos vidros. Lembrem-se que aqueles vidros não são obras de arte, não fazem sentido em exposições, em galerias institucionalizadas, os sentidos deles estão sendo gerados a cada lugar daquela sala; em cada intervenção de uma mão de vcs que os muda de lugar, nasce um novo sentido. Tem coisa da Lygia Clark nesta ideia. A cada dia gosto mais do grupo sabadotempo, da sala, do que está sendo gerado lá.
Se a minha memória pode ser comparada, como sugeriu Baudelaire, com a metáfora palimpsesto, ela é um palimpsesto labiríntico. Misturei Baudelaire com Borges. O sonho, desta noite, revelou-me um caminho que devo trilhar nesse meu labirinto de palimpsestos espalhado e espelhado na sala de gravura; sem tocar nos corpos, sem dar beijinhos formais ou apertos de mãos - coisa de gente educada - vou me aproximando de vcs sem afetações; a cada dia que passa mais em silêncio e guardando os meus segredos e medos nos vidros. Lembrem-se que aqueles vidros não são obras de arte, não fazem sentido em exposições, em galerias institucionalizadas, os sentidos deles estão sendo gerados a cada lugar daquela sala; em cada intervenção de uma mão de vcs que os muda de lugar, nasce um novo sentido. Tem coisa da Lygia Clark nesta ideia. A cada dia gosto mais do grupo sabadotempo, da sala, do que está sendo gerado lá.
EM TEMPO
Gostaria de enviar um recado para o Yuri - o Lucélia - estou interessado em imprimir uma cópia completa do TCC dele para deixar na sala de gravura. Claro que gostaria de mudar o papel da caixa e o material onde imprimiu o tabuleiro. Será que ele concordará? Se ele não ler esta mensagem, quem puder fazer um favor, avise-o por outro meio. Obrigado. Claudio
sobre ontem dia 30 de maio de 2012
Faltou tempo para a discussão sobre o TCC. Gostei muito do que aconteceu na galeria. Não vou comentar nada sobre isto porque foi muito discutido ontem. No próximo sabadotempo gostaria de falar sobre um livro "Fazedor" de JLBorges, acho que poderá organizar o TCC de quem tem fragmentos de textos. Este livro será um norte para a organização de alguns dos textos de vcs. Abraço, Claudio
quinta-feira, 28 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
Gostaria de saber como foi a reunião-sopa-de-legume. No próximo sábado vamos discutir o quê? (esse que tem acento?) A minha sugestão é que façamos uma performance na galeria. O Leon está querendo fazer uma performance. Ainda não sei qual a data que ele quer. Mas, a proposta é que cada um leve um objeto/afeto, algo que detém um afeto, algo relativo à memória afetiva e à vida de vcs para a galeria e depois deixemos para ele fazer o trabalho dele. Esta é uma divulgação e uma consulta. abraço a todos, Claudio
quinta-feira, 21 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
domingo, 17 de junho de 2012
Depois de ontem. Hoje. No tempo escorrendo enquanto levantei, nasceu uma ideia. Ou melhor, ela nasceu ontem voltando pra casa, quando conversava com a Eliane e com o Adolfo no taxi. Então, a ideia, agora, já um bebê que pensou: no próximo sábadotempo vou propor a vcs que sorteiem a ordem de uma série de apresentações dos trabalhos práticos de cada um; organizem cada apresentação segundo uma ótica de tempo implícita em cada trabalho ou melhor segundo um ponto de vista de tempo em vcs mediante a organização dos trabalhos. O que vcs acham? Podemos fazer esses encontros na Galeria, cada um organizaria o seu trabalho no chão da Galeria que poderia ficar lá durante uma semana e assim cada um poderia convidar alguém, um professor, estudante, amigo etc. para conversar sobre o seu trabalho na "Galeria do Chão". A abertura poderia ser num dia da semana à noite. E na sala de gravura poderíamos reservar para as práticas que cada um tem feito e discussões teóricas, além do jantar é claro. Abçs, Claudio
segunda-feira, 11 de junho de 2012
ontem, domingo teve sabadotempo/ a filosofia seria a base da conversa, felizmente foi um pouco, mas a poesia ganhou espaço no tempo. Ler e reler foi revelações sobre revelações. A cada leitura do mesmo poema de FPessoa, a cada voz, eu percebia/sentia um mundo revelando-se diante do grupo. Acho que a leitura de poemas seria um bom prosseguimento. Mas não se esqueçam do texto, afinal de contas o projeto é de texto acadêmico... a poesia como alimento vivo. Deixem o urubu voar porque quando voa é lindo de "morrer", como o Márcio disse: alimenta-se da morte, nós de poesia. A cada dia estou menos carnívoro.
sexta-feira, 8 de junho de 2012
A Carta que parou no tempo...
No sábado dia dezenove de maio, Nos encontramos na casa da Natália, e depois que todos leram, suas cartas até o próprio tempo, fiquei com vergonha e guardei a minha. Então durante aquela semana, pensei na proposta: tentei atribuir características físicas ao tempo, e tornar ele pessoa, sentindo tudo, tudinho mesmo- como a gente, e eu que sempre pensei no tempo, como memória então o imaginava velho?Bom na carta, o tempo é um missívista bebe Então não atribui nada a ele, e decidi ao invés de responder perguntar a ele mesmo o que ele sentia, como sentia o mundo e as coisas.
iniciei no dia 13/05, no primeiro dia da semana as 8:22: Perguntei a terra como ela sente o tempo.
14/05, 10:15 Perguntei para a arvorezinha de pitanga do jardim de minha casa, que mais é bersário do que arvore como ela sente o tempo.
15/05, 12:09 Perguntei para um passarinho que veio comer os farelos de pão que estavam na calçada como ele sente o tempo.
16/05,17:19 Perguntei para me cachorro Bylli junior como ele sente o tempo.
17/05, 22:00 Perguntei para o vento que tocava algumas folhas como ele sente o tempo.
18/05, 13:16 Perguntei a água da torneira mesmo pois não choveu esta semana, como ela sente o tempo.
E ainda não obtive resposta...
sábado, 2 de junho de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
O LUGAR MÍTICO DA MEMÓRIA Cláudia Cerqueira do Rosario
O LUGAR MÍTICO DA MEMÓRIA
Cláudia
Cerqueira do Rosario
Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Mestre em Filosofia
Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Mestre em Filosofia
Morpheus
- Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 01, número 01, 2002
A Teogonia1 de Hesíodo,
que nos narra a origem dos deuses na tradição grega, conta que no princípio surgiu Gaia
(a Terra) de amplos seios, que antes de tudo gera para si própria um consorte, Urano (o
Céu). Juntos produzem numerosa descendência. Entre outros seres fantásticos, a
hierogamia primordial grega gera os Titãs, e entre eles Mnemósine. A palavra grega
prende-se ao verbo mimnéskein, que significa "lembrar-se de". A
titânida Mnemósine, assim, vem a configurar no universo mitológico grego a própria
personificação da Memória.
Mas o mito nos diz mais. Ele nos diz que um dos
Titãs, Cronos, depois de destronar o pai despótico e instaurar um governo ainda mais
despótico, é por sua vez destronado por seu filho Zeus num terrível combate. Para
celebrar, Zeus une-se durante nove noites consecutivas à Mnemósine, e desta união
nascem nove filhas, as cantoras divinas que tinham por função primeira presidir as
diversas formas do pensamento: sabedoria, eloqüência, persuasão, história,
matemática, astronomia. São as nove Musas e a palavra grega que as designa, como
assinala Junito Brandão2 , talvez se relacione a um termo que significaria
"fixar o espírito sobre uma idéia, uma arte". Também à mesma família
etimológica pertence a palavra "música" - o que concerne às Musas - e
"museu" - o templo das Musas, onde elas residem ou onde alguém se adestra nas
diversas artes.
A própria Teogonia se inicia com a
invocação às Musas. O poeta rapsodo, o aedo, através da palavra cantada, guarda a
visão de mundo e a consciência histórica do grupo social em que se gerou, ou seja, a
comunidade pastoril anterior à formação das cidades na Grécia. Como assinala Torrano,
É através da audição deste canto que o homem comum podia romper os estreitos limites de suas possibilidades físicas de movimento e visão, transcender suas fronteiras geográficas e temporais, que de outro modo permaneceriam infranqueáveis, e entrar em contato e contemplar figuras, fatos e mundos que pelo poder do canto se tornam audíveis, visíveis e presentes. O poeta, portanto, tem na palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os bloqueios e distâncias espaciais e temporais, um poder que lhe é conferido pela Memória (Mnemosine) através das palavras cantadas (Musas).3
É o dom de
Mnemósine: conduzindo o côro das Musas, confundindo-se mesmo com elas, preside a
função poética. A Grécia arcaica da mesma forma que diviniza a função psicológica
da Memória, diviniza a possibilidade de suas funções: a poesia é uma espécie de
possessão pelas Musas, de delírio divino que toma o poeta e o transforma no intérprete
de Mnemósine, daquela que tudo sabe, e como nos canta Hesíodo "inspiraram-me um
canto divino para que eu gloreie o futuro e o passado". 4
Mas, como assinala Vernant5, a
atividade do poeta orienta-se preponderantemente para o passado, e mais especificamente
para o "tempo original". A Mnemósine mítica aparece mesmo no início dos
tempos, filha de uma primeira geração divina, presente naquele tempo originário que o
canto de Hesíodo nos apresenta possuído pela inspiração das Musas. Não é, pois, um
passado qualquer que se apresenta no canto do poeta: é a própria possibilidade de ser do
mundo, o próprio momento gerador cujas conseqüências se vêem no mundo presente, neste
mundo visível em que vivemos. O canto das Musas evoca Memória que presentifica níveis
diferentes de ser: nos leva ao momento mesmo em que se constituem Terra e Céu , em que
Zeus combate os Titãs, em que o mundo vem a ser o que é. O canto das Musas é, assim,
revelação e conhecimento do mundo.
Muito nos pode dizer o mito de Mnemósine e das
Musas com relação ao nosso sentido contemporâneo de Memória. Para percebê-lo, podemos
explorar o próprio sentido da palavra "mito" . Como nos assinala Torrano,
My'thos é uma das muitas palavras que a língua de Homero e de Hesíodo dispõe para designar o ato da fala. Nessa riqueza vocabular, correspondente à espantosa exatidão com que o homem na grande época do mito do mundo percebe e se dá conta dos diversos matizes da concretitude e da pluralidade, descobre-se um senso de realidade cujo modo privilegiado de conhecimento é a intuição instantânea do sentido totalizante do ser em seres imediatamente dados em cada caso. 6
O mito é assim, antes de tudo, uma ontofania, ou
seja uma manifestação de ser. Torna presente o próprio fenômeno da existência em sua
plenitude de ser e de sentido, nos coloca diante da própria gênese dos deuses e homens.
O mito é a palavra que revela o ser. Revela-o, note-se bem. Não o conceitua ou esgota,
ou delimita-o a um sentido. O mito é antes, a revelação da própria pluralidade de
sentido, ou do próprio excedente de sentido que o conceito, por sua natureza, não pode
conter. Por isto, a fala do mito não conceitua, mas revela e mostra. E mostra como ser,
como o "sendo" do tempo original, em que constituiu-se o ser do mundo, dos
deuses e dos homens. E o mito, nas sociedades arcaicas, tem o papel essencial de
re-atualizar aquilo que se passou na origem dos tempos, o que torna fundamental seu
conhecimento. Mircea Eliade nos diz :
Não só porque os mitos fornecem uma explicação do Mundo e da própria maneira de estar no mundo, mas sobretudo porque, ao recordar, ao reactualizá-los, ele é capaz de repetir o que os Deuses, os Heróis ou os Antepassados fizeram ab origine. Conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. Por outras palavras, aprende-se não só como as coisas passaram a existir, mas também onde as encontrar e como fazê-las ressurgir quando elas desaparecem. 7
O termo "recordar" é aqui fundamental.
No contexo mítico, recordar significa resgatar um momento originário e torná-lo eterno
em contraposição à nossa experiência ordinária do tempo como algo que passa, que
escoa e que se perde. A recordação, como resgate do tempo, confere desta forma
imortalidade àquilo que ordinariamente estaria perdido de modo irrecuperável sem esta
re-atualização. Traz de novo a presença dos Deuses, os feitos exemplares que forjam os
Heróis e que perseguimos ainda hoje como modelos exemplares, nos coloca novamente em
presença das tradições dos Antepassados que nos tornaram o que somos. Assim, como
dissemos, o papel da memória não é apenas o de simples reconhecimento de conteúdos
passados, mas um efetivo reviver que leva em si todo ou parte deste passado. É o de fazer
aparecer novamente as coisas depois que desaparecem. É graças à faculdade de recordar
que, de algum modo, escapamos da morte que aqui, mais que uma realidade física, deve ser
entendida como a realidade simbólica que cria o antagonismo-chave com relação ao nosso
tema: o esquecimento. O esquecimento é a impermanência, a mortalidade. E não nos dirá
Platão mais tarde que "a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre
e ficar imortal " ? 8
O lugar da Memória é, pois, o lugar da
imortalidade. Em Platão, o conhecimento é compreendido como reminiscência: é o amor do
belo que desperta na alma as lembranças do conhecimento das idéias perfeitas,
obscurecidas pela encarnação. Por sua vez, as formas da atividade amorosa -
procriação, poesia, legislação - garantem a "memória das virtudes" que
conservamos, e garantem "imortal glória e memória" às obras produzidas e
deixadas às gerações, como as obras de Homero e Hesíodo.9 É a atividade
amorosa que gera - filhos ou obras . No caso dos filhos, perpetua-se a memória do sangue,
ou, como podemos dizer hoje em dia, dos genes da espécie humana. No caso das obras,
permanecem a cultura, os valores, as expressões máximas do pensamento e do sentimento
humano coletivos. Em ambos os casos, invisível sob o inexorável transcorrer da
duração, sob as inevitáveis transformações seculares, o passado presentifica-se em um
gesto, em uma reminiscência ou lembrança que eclode na releitura de um mito, na
presença de um objeto que nos evoca um tempo que já não é o nosso mas que contribuiu
de modo efetivo para que sejamos o que somos. Em suma, a memória não está apenas no
passado trazido à tona pela recordação, mas está presente em nossos corpos, em nosso
idioma, no que valorizamos, no que tememos e no que esperamos. A memória nos identifica
como indivíduos e como coletividade. A memória permite mesmo que estas linhas sejam
escritas em seqüência coerente.
Quando pensamos em "passado", temos a
tendência a imaginá-lo como algo pertencente à um tempo longínqüo, datado em
cronologias distantes. O passado se parece com a Grécia Clássica, com o Império Romano,
com o Mundo Medieval, com as inverossímeis pirâmides egípcias, com os vasos etruscos,
com os cacos das civilizações perdidas. Confundimos ordináriamente o passado com o
"não ser mais". Com o arcaico, com o anacrônico, com o superado. Esquecemos -
perigo supremo - que o final desta frase já é passado, que ao acabarmos de pronunciar a
palavra "presente" ela não está mais em ato. Ao pensarmos o ser, tendemos a
conjugá-lo no passado, no presente e no futuro. Pensamos no que foi, no que é e no que
será. Esquecemos o gerúndio; o "sendo" que nos coloca diante da continuidade
que relativiza estes lugares estanques de tempo, e faz com que sejamos, a rigor, forjados
nesta sucessão incontável de instantes, minutos, horas, dias, anos, séculos e milênios
nos quais se teceram a história coletiva da humanidade e mesmo nossos seres individuais.
O que fomos está, pois, contido, conscientemente ou não, naquilo que somos agora .
Dizem os físicos
que toda a matéria do Universo estava contida numa única unidade infinitesimalmente
pequena e infinitamente densa. Houve uma grande explosão, e desde então, o Universo
expande-se a uma velocidade espantosa. Esta explosão marca o início do tempo, pelo menos
tal como o conhecemos. Acreditam os físicos também que esta expansão terá um limite,
depois do qual todo o Universo fará o movimento inverso de retração, o que determinará
seu fim ou, pelo menos, a volta à seu estado inicial. Esta é, sucintamente, a cosmologia
na qual cremos em final do século XX: é a explicação científica de nossa origem em
grande escala.10 Uma das conclusões decorrentes de tal tese é a de
que, já que todo o Universo estava condensado naquele início, de algum modo estavamos
presentes àquele momento inicial. Ou seja: a matéria e/ou energia de que somos
constituídos vem atravessando bilhões de anos, e atravessará outros tantos,
transformando-se e diferenciando-se em infinitas formas, em infinitos seres, desde a
estrela mais brilhante que nossa tecnologia pode observar até folha nova e tenra que
nasce no vaso em nossa sala de estar. Em nossos corpos há algo do começo dos tempos que
perdura, há vestígios do passado mais remoto que o gênio humano foi capaz de conceber.
Em nossos corpos, se estão certos nossos homens da ciência, está presente algo do
início do mundo.
Ora, não teríamos aqui, em nossa cosmologia
tecno-científica e racional, alguns vestígios da visão mítica do mundo? Não há,
pois, nos seres do presente a presentificação de elementos remotos do "tempo
original", dos "princípios" em que se deu o próprio vir a ser do mundo
que agora dissecamos à exaustão nas diversas especialidades daquilo que chamamos
Ciência? E não seria a Ciência, como as Musas do rapsodo grego, também uma filha da
Memória?
As Musas cantam o fazer-se contínuo do mundo, o
fazer-se do pensamento. Cantam mesmo o fazer das artes. O museu, templo das Musas, era
originariamente não apenas sua moradia, mas o lugar de adestramento das artes, onde o
conhecimento adquirido, ao ser lembrado, permite estabelecer um nexo com o conhecimento
novo. Assim, a Memória é não apenas importante para a retenção do conhecimento, mas
fundamental para a elaboração do conhecimento científico, tecnológico e filosófico.
Sem a memória que permita a presentificação do conhecimento não há o passo adiante. A
memória é, assim, de certo modo, mãe da inspiração: pois que é o nosso fazer
contínuo além fabricação do passado que se faz a cada instante ?
A noção de Memória evidentemente
transformou-se muito, desde o tempo em que era vivida como a divindade que presentificava
o passado e gerou as filhas que presidiam a função da arte e da ciência. Foi analisada,
codificada em funções fisiológicas e psíquicas , recebeu diferentes atribuições de
valor e importância dentro das inúmeras teorias do conhecimento, até ser, em nossa
cultura contemporânea, profundamente desvalorizada na obsessão pelo "novo" e
na proliferação do descartável. Reduzimos o objeto da memória ao "não-ser".
Pode-se mesmo, deste ponto de vista, perguntar: qual o interesse para o presente de uma
acepção mítica de Memória?
O mito nos responde: a Memória liga o presente
ao passado, mostra ao ser que existe como se constituiu e no que se fundamenta para vir a
ser. Mostra-nos identidade e diferença, nos aponta a repetição, permite que nos
admiremos diante do novo. Pois não se diz que é "novo" aquilo diante do qual
procuramos referências na memória e não encontramos? E, no instante seguinte àquele em
que é percebido, o novo pertence ao passado e ao domínio da Memória.
Não nos lembramos de tudo, nem pessoal nem
coletivamente. Lembramos aquilo que tem significado, aquilo que é importante. Assim,
vivemos entre a memória e o esquecimento, talvez porque vivamos entre o ser e o não ser
mais. Certamente precisamos de ambos para viver. A memória nos faz lembrar de quem somos
e o que nos faz querer ir a algum lugar. Quanto ao esquecimento, não é aqui lugar dele
agora: é tema para outra reflexão.
NOTAS:
1 HESÍODO. Teogonia, A Origem dos Deuses.
Estudo e tradução de Jaa Torrano, São Paulo: Iluminuras, 1992.
2 BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega. vol.
I, Petrópolis: Ed. Vozes, 1994, p.202-3.
3 TORRANO, Jaa. "O Mundo Como Função de
Musas". In: HESÍODO. Teogonia ...p.16.
4 HESÍODO. Teogonia ... p. 31-32.
5 VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento
entre os Gregos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, Ed. da Universidade de São
Paulo, 1993. p. 73-4.
6 TORRANO, Jaa. O Sentido de Zeus, São
Paulo: Iluminuras, 1996, p. 25.
7 ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Lisboa:
Ed. 70, 1986, p. 19.
8 PLATÃO. O Banquete. Coleção
Pensadores, São Paulo: Ed. Abril, 1972, p. 45.
9 PLATÃO. O Banquete, p. 46.
10 a respeito, ver HAWKING, Stephen. Uma Breve
História do Tempo. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.
terça-feira, 29 de maio de 2012
28 05 2012
hoje pensei que não iria escrever palavras para outros lerem. comentaram, - mas é assim que ele busca as referencias pra escrita, (não foi bem assim), mas foi isso. isso relacionado a voltar caminhando pra casa de noite, pois muitos não entendem essa ação, caminhar um pouco mais de uma hora pra chegar em algum lugar, - e você não tem medo, é o que muitos dizem. andando, um senhor que vem na contra mão: - garoto, hoje é segunda-feira?, - sim. saímos dando risada, ele e eu, por uma felicidade de encontrar historias em um dia pensativo
que corre distante
que as águas estão levando no curso do rio, água parada, água corrente.
dias de homens idosos, admiração de uma vida e sabedoria de chegar a esse ponto, seja como for, mas chegar vivendo,
vivendo, vivendo.
senhor empurrando uma cadeira de rodas, perto de um bingo, senhora sentada, imagino ser um casal em seu curso de alegria, prazer e dor, satisfação em buscar no que se pode essa satisfação que o viver oferece.
dia de homens, garotos no mesmo caminho, escuro, baixada, subida, ponte com poça d'água e barro verde que não pude ver ao alcance dos olhos, e era verde, imagino agora, assim como poderia ser amarelo.
mãos atrás que se seguram, esquentam os pequenos ossos que como pinças agarram umas as outras, senhor calvo com caminhar mais alto que o som da noite, as motos passam distantes, o carro é devorado pelo vento, mas o que ouço mesmo são esses passos do senhor calvo segurando as mãos atras, passos largos, distante uma perna da outra, passos para fora,
chutar os lados que a mata fechada de colonhão obriga a desfaze-la para a passagem.
um pouco antes dos passos, um senhor dobra a esquina, um susto para minha pele que já fria pelo vento de fim de outono, senhor branco laranja de blazer de couro preto, vindo pela calçada, passa sem olhar para trás, alguns segundos mais frios que os outros.
pequeno mundo que os passos conseguem passar, pequeno mundo que os pés conseguem pisar, mesmo calçados, o pequeno espaço de contato nesse um pouco mais de uma hora,
frio e quente se contorcem no corpo que por calçada e terra passam
que pelo frio e somente de camiseta seguem, pois o corpo suando com o vento gelado congelando o suor, fazendo-o voltar pelas portas que saíram.
esse pequeno mundo também existe.
hoje pensei que não iria escrever palavras para outros lerem. comentaram, - mas é assim que ele busca as referencias pra escrita, (não foi bem assim), mas foi isso. isso relacionado a voltar caminhando pra casa de noite, pois muitos não entendem essa ação, caminhar um pouco mais de uma hora pra chegar em algum lugar, - e você não tem medo, é o que muitos dizem. andando, um senhor que vem na contra mão: - garoto, hoje é segunda-feira?, - sim. saímos dando risada, ele e eu, por uma felicidade de encontrar historias em um dia pensativo
que corre distante
que as águas estão levando no curso do rio, água parada, água corrente.
dias de homens idosos, admiração de uma vida e sabedoria de chegar a esse ponto, seja como for, mas chegar vivendo,
vivendo, vivendo.
senhor empurrando uma cadeira de rodas, perto de um bingo, senhora sentada, imagino ser um casal em seu curso de alegria, prazer e dor, satisfação em buscar no que se pode essa satisfação que o viver oferece.
dia de homens, garotos no mesmo caminho, escuro, baixada, subida, ponte com poça d'água e barro verde que não pude ver ao alcance dos olhos, e era verde, imagino agora, assim como poderia ser amarelo.
mãos atrás que se seguram, esquentam os pequenos ossos que como pinças agarram umas as outras, senhor calvo com caminhar mais alto que o som da noite, as motos passam distantes, o carro é devorado pelo vento, mas o que ouço mesmo são esses passos do senhor calvo segurando as mãos atras, passos largos, distante uma perna da outra, passos para fora,
chutar os lados que a mata fechada de colonhão obriga a desfaze-la para a passagem.
um pouco antes dos passos, um senhor dobra a esquina, um susto para minha pele que já fria pelo vento de fim de outono, senhor branco laranja de blazer de couro preto, vindo pela calçada, passa sem olhar para trás, alguns segundos mais frios que os outros.
pequeno mundo que os passos conseguem passar, pequeno mundo que os pés conseguem pisar, mesmo calçados, o pequeno espaço de contato nesse um pouco mais de uma hora,
frio e quente se contorcem no corpo que por calçada e terra passam
que pelo frio e somente de camiseta seguem, pois o corpo suando com o vento gelado congelando o suor, fazendo-o voltar pelas portas que saíram.
esse pequeno mundo também existe.
domingo, 27 de maio de 2012
“O jardim dos caminhos que se bifurcam”, Jorge Luis Borges
“O jardim dos caminhos que se bifurcam”, Jorge Luis Borges
O jardim de
caminhos que se bifurcam é uma enorme charada, ou parábola, cujo tema é o
tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção desse nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas
ineptas e a perífrases evidentes, é quiçá o modo mais enfático de indicá-la. É
o modo tortuoso que preferiu, em cada um dos meandros de seu infalível romance,
o oblíquo Ts’ui Pen. Confrontei centenas de manuscritos, corrigi erros que a
negligência dos copistas introduziu, conjurei o plano desse caos, restabeleci, acreditei
restabelecer, a ordem primordial, traduzi a obra toda: consta-me que não usa
uma só vez a palavra tempo. A
explicação é óbvia: O jardim de caminhos
que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal
como o concebia Ts’ui Pen. Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu
antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em
infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos
divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam,
se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Não existimos
na maioria desses tempos; nalguns existe o senhor e não eu. Noutros, eu, não o
senhor; noutros, os dois. Neste, que um acaso favorável me surpreende, o senhor
chegou a minha casa; noutro, o senhor, ao atravessar o jardim, encontrou-me
morto; noutro, digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma. (...)
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Marca d'Água
marca d’água para Walter Benjamin
o tempo estanca
verte da pedra
veios de leite
clara fonte
da fronte à tez
em lisuras de
pérola
a fôrma em nacar
aquilo que se sabe
logo não mais se terá diante de si
torna-se imagem
o sono que trai
a tarde
a paisagem à janela
já é velocidade
fronteiras
todas em movimento
até a memória
é passageira
sem ninguém a
confirmar testemunho
ela retorna
e quando
qualquer registro
a impossibilita
ela se revela
íntegra
impulso
involuntário
e o fragmento
vale pelo todo
Inútil paisagem (a paisagem desenhada deve perder toda utilidade pragmática, deve ser o resultado de um tempo em compasso, enlevo, contemplação, respiração, tempo pleno)
Inútil Paisagem
pouco sólida
educação
no azul
mas voltada
à
sensibilização
retiniana
a depurar
por consulta à
museus
e outras
paragens
entre paisagens
e camadas
sobrepostas da urbe
o olhar
periférico
peristáltico
cruza com um olhar
de frente
firme em seu
centro
mestre
a quem recorre
neste azul
que não foge
mais
às letras
insiste
do desenho como um naufrágio
do desenho como um naufrágio
linhas
paralelas, sequências horizontais
o caderno com o
traçado das correntes marinhas
diário de
bordo, roteiro de céus
nuvens em
deslocamento, brisa, o vácuo do vento
desenhos a
serem decifrados
desenhos a
capturar tempestades
o amanhecer
revela um traço
sem mais
distâncias
parelelos
o vazio
tão próximo
já está
da cunha que
lavra a prata
navega letra,
história, relato
surdo
cegueira da
vertigem
só olfato
a náusea
na corrente que
traga qualquer rumo
redemoinho
os lençóis emaranhados
mapa,
cartografia
da cama
desfeita
imprimindo os
corpos e seus ritmos
lentos de
magma, rastejando
a preguiça
manhosa amanhece
em cheiros,
registros
nas dobras
líquidas, veios, membranas
vertedouro das
águas
à boca a sede
vinca
a concha em
roda
desorientada
línguas de
anêmona no céu da boca
a voz que
tropica
anasalada
sufoca em
sereia
rabo e açucenas
seus segredos
afogados
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Fiz uma pasta do projeto no xerox do CCH - número 425. Tem outros textos também, se quiserem podem copiar. Mas os textos que devem ser lidos e comentados em futuras cartas no próximo encontro são os seguintes: Introdução do livro "Intenções" de Oscar Wilde - escrita pelo João do Rio; O poema Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, assim como um texto em prosa sobre este heterônimo. Os demais são textos importantes na literatura brasileira e duas traduções do Gênese para que vcs opinem sobre qual a melhor tradução.
terça-feira, 22 de maio de 2012
AVISO IMPORTANTE
A TALITA TINHA UMA CARTA PARA LER E NÃO LEU NAQUELA NOITE NA CASA DA NATALIA ZIT. PASSEI SEM QUERER NA FRENTE, ATRAVESSANDO... E ELA ME DISSE ISTO SOMENTE HOJE NA UEL; QUE TINHA UMA CARTA PRA LER... SUGERI QUE POSTASSE A CARTA AQUI. TALITA... ESCREVA-NOS A CARTA, POR FAVOR...
Sobre o último encontro. Achei maravilhoso. Entretanto, gostaria de manifestar que por mais linda que seja a casa da Natália, acho que o lugar mais adequado para os encontros do sabadotempo é a sala da gravura, sem vinho, com pouca comida, sem complicações de encontros em pontos de ônibus, desencontros etc., o grupo está aumentando e não pode passar desse número, que já nem sei quantos elementos temos no grupo, mas precisamos fechar o grupo, pontuar o espaço e falar de tempo que é quase uma conversa infinita...
preguiça
pra ver o que escrevi é preciso selecionar todo o texto, desculpa mas estou com preguiça de digitar novamente
a partir da vivencia
21 05
2012
os pés na calçada concreto poeira que nem percebo, atravessando asfalto
as vezes terra e grama como espumas e nuvens que consigo desfrutar
nessas andanças que encontro seres mais perdidos que eu mesmo consigo ser
- oh irmão, tem cinquenta centavos pra inteira o álcool pra fazer a comida.
...
sobre os pés no concreto frio, desloco um apos o outro
sob estrelas e céu nublado mesmo em dia de estrelas radiantes, abundantes
subindo:
que horas são? sou de bem, não quero fazer mal - quer comprar uma jaqueta?... dez reais... pra que você acha? eu sei, só estou sem grana...
- cuidado com isso, muito perigoso e traiçoeiro...
e desce perdido a procura, isso meia noite, já tarde pra um bem arrumado que aparenta trabalhar amanhã de manhã
andar à noite encontro pessoas perdidas
mais que eu
e ainda consigo aconselhar
obrigado estar ciente, mesmo alterado
pois o ar noturno embriaga o ser que procura
caminhar e pensar, alucinar palavras de um dia vivencia
os pés na calçada concreto poeira que nem percebo, atravessando asfalto
as vezes terra e grama como espumas e nuvens que consigo desfrutar
nessas andanças que encontro seres mais perdidos que eu mesmo consigo ser
- oh irmão, tem cinquenta centavos pra inteira o álcool pra fazer a comida.
...
sobre os pés no concreto frio, desloco um apos o outro
sob estrelas e céu nublado mesmo em dia de estrelas radiantes, abundantes
subindo:
que horas são? sou de bem, não quero fazer mal - quer comprar uma jaqueta?... dez reais... pra que você acha? eu sei, só estou sem grana...
- cuidado com isso, muito perigoso e traiçoeiro...
e desce perdido a procura, isso meia noite, já tarde pra um bem arrumado que aparenta trabalhar amanhã de manhã
andar à noite encontro pessoas perdidas
mais que eu
e ainda consigo aconselhar
obrigado estar ciente, mesmo alterado
pois o ar noturno embriaga o ser que procura
caminhar e pensar, alucinar palavras de um dia vivencia
domingo, 20 de maio de 2012
Carta 19/05/2012
Eu não sei escrever cartas. Porque toda carta começa com um
“ Olá Fulano, quanto tempo, tudo bem? “ ou “Querido Fulano”, não
sei, mas sempre começa com uma pequena introdução, para que o destinatário não
seja atropelado por qualquer assunto com frases do tipo “ Eu não sei
escrever cartas”, vindas de algum mal educado. Tudo bem, ninguém aprende
se não pratica, mas por não saber dar início as coisas ( coisa que deveria ser
mais simples para uma ariana), por não saber escrever cartas, assim
como não sei me despedir, por não saber chegar de mansinho em qualquer
conversa, é que eu evito tanto ter de faze-los.
Semana passada eu fugi mesmo, fugi de escrever, fugi de falar e acabei
tornando uma coisa simples em um problema desnecessário que eu gostaria de ter
evitado. Estou falando tanto em evitar ações, em fugir de coisas que para
a maioria é simples, mas por algum motivo para mim não é, porque percebi que
arranjei um dispositivo de fuga, uma forma de aumentar ou diminuir meu tempo e
esse dispositivo trouxe junto dele uma desorganização mental, e esse é o
motivo dessa carta. Me dei conta disso quando comecei a ler “Estâncias”
do Manolo, onde ele diz:
“Pois o sono tornou-se um refúgio, dormir uma fuga.
Uma pré-disposição para esquecer-se de si.
Perder-se num outro inesperado, aleatório.
Dar-se entregue ao sono é descuidar do próprio eu,
é fragilizar o estado de vigília a que se submete o
sujeito desperto.
Procurar por sendas na vida para assim escapar dela
mesma,
é encontrar outras possibilidades de consciência.
Mas sem consistência a consciência haverá de
existir?
Sem negar as tensões que trazem os dias,
confesso: necessito descanso.
Após o longo período de mergulho.
Submergir para respirar.”
Provavelmente eu não veja como ele, mas nada faz mais sentido para mim
no momento, do que esses escritos. Nunca precisei ficar tanto tempo acordada
como esse ano, no entanto também nunca dormi tanto, era pensar em qualquer
responsabilidade que meu coração disparava e logo depois eu sentia um sono
incontrolável...Não, não acho que sou preguiçosa, acho apenas que venho sendo
egoísta comigo mesma, por não querer experimentar coisas novas. Sei que durmo
para fugir dos afazeres, mas errado ou não, faço isso por medo, porque de forma
covarde, não quero ser responsável, faço isso na esperança de permanecer num
tempo de infância, faço isso porque dormindo não tenho culpa de nada, porque
sinto como se o tempo parasse e esperasse eu pensar na vida, em como resolver
os problemas, encontro no sono uma serenidade que não tenho acordada, não tenho
que cuidar nem de mim e posso experimentar um tempo, um espaço muito mais
interessante do que o que tenho com os olhos abertos, porque dormindo posso
saltar de um lugar para outro bem distante em um espaço de tempo ainda
impossível de ser realizado fisicamente. Durmo, porque acredito no tempo como
uma sucessão de camadas que se encostam, se cruzam e se afastam, como as linhas
nos mapas, um tempo que é relativo e que existem em vários mundos e níveis de
consciência, os quais eu acesso dormindo, devaneando...
Com esse teletransporte que arranjei, que é dormir, o meu
tempo se tornou além de um tempo sonolento, um tempo confuso, durmo 5
minutos, tenho sonhos onde a temporalidade é de uma semana e quando acordo se
passaram três horas. Se durmo as 14 horas e acordo as 14 e 30 do dia 18 penso
que já estou no dia 19, então estou em um futuro, tenho certeza de que
estou no presente do dia 19, alguém me avisa que o dia ainda é 18, então eu
volto para o passado, mas eu já estive no dia 19. Nessa altura, sinceramente já
não sei o que é presente, já não sei se o tempo é pessoal, universal ou de
ninguém, não sei mesmo, acho que não sei nem o que é tempo. Não sei se o tempo
é o tempo da Talita, tempo de tempestade, temporal, tempo de chuva, ou se
o tempo é aquele de quando a minha avó conta uma história para me
repreender e começa a frase com: “Naquele tempo menina...as coisas não eram
assim não...” Eu não sei como eram, eu não sei que coisas são essas, eu
não sei como são, talvez eu saiba se houver um futuro, ou não. Espero que um
dia alguém me explique, pois para mim o tempo é bastante espirituoso, me
prega peças feito um saci.
Eu só sei que o tempo pode estar feio, porque quando está cinza lá fora,
é isso que o meu pai fala... Mas a Talita pode achar o cinza bonito. Eu sei que
já passou o tempo quando minha mãe me pergunta porque eu ainda não fiz alguma
coisa. Sei que já passou o tempo quando sinto que preciso ir embora antes que
alguém fique preocupado... Ou como quando era criança, entrava pra tomar
banho e lá fora estava claro e quando eu saia já estava escuro... É quando eu acho que aquela cicatriz feia na pele não faz mas diferença. Sei que
passou o tempo quando eu vejo a paineira e ela não está mais florida ou quando
a Talita conta que o Cláudio derreteu a chapa de metal dela, porque esqueceu e
deixou muito tempo no ácido. Talvez sejamos uma chapa de metal com as linhas
riscadas e o tempo seja um ácido que ao mesmo tempo que serve pra gravar as
coisas, quando é de mais, nos faz esquecer, quanto mais tempo mais corrói e
apaga, mas o próprio tempo não perdoa esquecimentos, cura muita coisa,
mas não perdoa nada...
Acho delicado falar de tempo... De qualquer forma, eu sei que fui
sincera.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Maurice Blanchot, "O encontro do imaginário"
Maurice Blanchot, "O encontro do imaginário",
tradução Leyla Perrone-Moisés
“As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma maneira
que não satisfazia, que apenas dava a entender a em que direção se abriam as
verdadeiras fontes e a verdadeira felicidade do canto. Entretanto, por seus
cantos imperfeitos, que não passavam de um canto ainda por vir, conduziam o
navegante em direção àquele espaço onde o cantar começava de fato. Elas não o
enganavam, portanto, levavam-no realmente ao objetivo. Mas, tendo atingido o
objetivo, o que acontecia? O que era esse lugar? Era aquele onde só se podia
desaparecer, porque a música, naquela região de fonte e origem, tinha também
desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo; mar
onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de
sua boa vontade, acabaram desaparecendo elas mesmas.
De que natureza era o canto das Sereias? Em que consistia seu
defeito? Porque esse defeito o tornava tão poderoso? Alguns responderam: era um
canto inumano – um ruído natural, sem dúvida (existem outros?), mas à margem da
natureza, de qualquer modo estranho ao homem, muito baixo e despertando, nele,
o prazer extremo de cair, que não pode ser satisfeito nas condições normais da
vida. Mas, diziam outros, mais estranho é o encantamento: ele apenas reproduzia
o canto habitual dos homens, e porque as Sereias, que eram apenas animais,
lindas em razão do reflexo da beleza feminina, podiam cantar como cantam os
homens, tornavam o canto tão insólito que faziam nascer, naquele que o ouvia, a
suspeita da inumanidade de todo canto humano. Teria sido então por desespero
que morreram os homens apaixonados por seu próprio canto? Por um desespero
muito próximo do deslumbramento. Havia algo de maravilhoso naquele canto real,
canto comum, secreto, canto simples e cotidiano, que fazia reconhecer de
repente, cantado irrealmente por potências estranhas e, por assim dizer,
imaginárias, o canto do abismo que, uma vez ouvido, abria em cada fala uma
voragem e convidava fortemente a nela desaparecer.
Não devemos esquecer que esse canto se destinava a
navegadores, homens do risco e do movimento ousado, e era também ele uma
navegação: era uma distância, e o que revelava era a possibilidade de percorrer
essa distância, de fazer, do canto, o movimento em direção ao canto, e desse
movimento, a expressão do maior desejo. Estranha navegação, mas em busca de que
objetivo? Sempre foi possível pensar que todos aqueles que dele se aproximaram
apenas chegaram perto, e morreram por impaciência, por haver prematuramente
afirmado: é aqui; aqui lançarei âncora. Segundo outros, era, pelo contrário,
tarde demais: o objetivo havia sido sempre ultrapassado; o encantamento, por
uma promessa enigmática, expunha os homens a serem infiéis a eles mesmos, a seu
canto humano e até à essência do canto, despertando a esperança e o desejo de
um além maravilhoso, e esse além só representava um deserto, como se a
região-mãe da música fosse o único lugar totalmente privado de música, um lugar
de aridez e secura onde o silêncio, como o ruído, barrasse, naquele que havia
tido aquela disposição, toda via de acesso ao canto. Havia pois um princípio
malévolo naquele convite às profundezas? Seriam Sereias, como habitualmente nos
fazem crer, apenas vozes falsas que não deviam ser ouvidas, o engano e a
sedução aos quais somente resistiam os seres desleais e astutos?
Houve sempre, entre os homens, um esforço pouco
nobre para desacreditar as Sereias, acusando-as simplesmente de mentira:
mentirosas quando cantavam, enganadoras quando suspiravam, fictícias quando
eram tocadas; em suma, inexistentes, de uma inexistência pueril que o bom senso
de Ulisses é suficiente para exterminar.
É verdade, Ulisses as venceu, mas de que maneira?
Ulisses, a teimosia e a prudência de Ulisses, a perfídia que lhe permitiu gozar
do espetáculo das Sereias sem correr risco e sem aceitar as conseqüências,
aquele gozo covarde, medíocre tranqüilo e comedido, como convém a um grego da
decadência, que nunca mereceu ser o herói da Ilíada, aquela covardia
feliz e segura, aliás fundada num privilégio que o coloca fora da condição
comum, já que os outros não tiveram direito à felicidade da elite, mas somente
ao prazer de ver seu chefe se contorcer de modo ridículo, com caretas de êxtase
no vazio, direito também de dominar seu patrão (nisso consiste, sem dúvida, a
lição que ouviam, o verdadeiro canto das Sereias para eles): a atitude de
Ulisses, a espantosa surdez de quem é surdo porque ouve, bastou para comunicar
às sereias um desespero até então reservado aos homens, e para fazer delas, por
desespero, belas moças reais, uma única vez reais e dignas de suas promessas,
capazes pois de desaparecer na verdade e na profundeza de seu canto.
Vencidas as sereias, pelo poder da técnica, que
pretenderá sempre jogar sem perigo com as potências irreais (inspiradas),
Ulisses não saiu porém ileso. Elas o atraíram para onde ele não queria cair
e, escondidas no seio da Odisséia,
que foi seu túmulo, elas o empenharam, ele e muitos outros, naquela navegação
feliz, infeliz, que é a da narrativa, o canto não mais imediato mas contado,
assim tornado aparentemente inofensivo, ode transformada em episódio.”
O
círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
Ana Hatherly
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Como
é essa qualidade do tempo? Não deveria ser quando os fatos estão em sintonia?
Porque um acidente de avião é resultado do tempo qualitativo? Há em mim um medo
muito forte de não saber perceber quando algo está maduro para ser vivido. E se
eu deixar passar uma vivência que teria mudado minha vida para sempre? Na
verdade qualquer decisão, seja ela a mais simples e banal, interfere em nossa
trajetória. Como, então, saber se as escolhas são as certas, as melhores? Tenho
a impressão de que mesmo evitando, algumas vivências insistem em serem vividas,
a fim de mostrar-nos algo. Pensando assim não vale a pena ficar evitando-as.
Mas como, se não sabemos se é o melhor, se realmente as queremos. Lei da
Atração? Destino? Ou foram nossos passos anteriores que nos levaram ao
enfrentamento da escolha por determinada vivência? E como fica o tempo em relação
a tudo isso? É ele quem está regendo o ritmo dos acontecimentos? Talvez. Muito
provavelmente essa seja sua função. Acompanhar. Compreender. Pressionar.
Impulsionar. Esgotar. Encerrar. Curar. Permitir renascer. Infinitas são as
funções que criamos para esse personagem invisível.
JUSTIFICATIVA
DECIDI, e já peço perdão pela atitude hierárquica e contraditória, deixar só eu e o Marcos como administradores. O motivo é bem simples, como nós teremos que organizar a pesquisa, achei mais conveniente vcs todos publicarem na entradatempo e nós dois selecionaremos essas publicações para as outras páginas, nem sei se isto é possível, mas vou tentar depois. Vamos continuar nos comunicando pela entradatempo. Gostaria muito que este blog não virasse um micro facebook.
Meus braços se abrem como asas enormes capazes de me levarem
aonde meus instintos me permitirem. Tudo pode ser controlável, mas pra que? Porque
controlar? Porque ter segurança sempre? Porque controlar o tempo se é o em sua
perda que esta a essência do intimo. E a perda do espaço? É possível projetar-se
para um lugar tão leve que tudo flutua.
Tudo é suave e puro. Mergulhar no
infinito sem temer o que ele possa esconder. Porque o inesperado é tão evitado.
E como é viver a espera da surpresa e do arrebatamento? Como ir de encontro
como o surpreendente?
A chuva que cai no consciente faz aflorar a dança da alma. O
que era vontade transforma-se em raio luminoso que atravessa as paredes do possível.
O corpo é sensação pura. É vibrante.
Meus pés voltam lentamente à superfície da razão. Tudo é
novamente controlável, porem mais leve.
domingo, 13 de maio de 2012
esculpir o tempo poético
esculpir o tempo
olho de gato
no fundo da xícara
cheia de café,
pupila vermelha em caleidoscópio,
bússola do tempo
a girar por reflexos,
fissuras da memória
em quadrantes e estações.
pensei um pouco sobre o tempo, saiu isso:
o tempo palpitante
pulsatilla
Lachesis
a vida a que destina
retira
aguarde
Cloto, Átropos
tempo em repouso
pousa a folha
lentamente
como o pluma roça a pele
toca a superfície d’água
o rio já corre
beija a vida
lava
leva a calma
traz a fama
reclama
o tempo
sem ressalvas
e aqui tentativa de brincadeira de fazer uma quadra que não saiu quadra,
Moura Torta
o tempo é uma porta
Moiras loiras
seu tempo foi das loiças
louça quebrada
horas mortas
cerzindo o ruído
roca mouca
agora varremos os cacos do chão
o mistério não se
arrebata
fuligem
varrendo todo
dia
o fundo da loja
ourives lapida
diamantes
trinta anos
guarda pó
um rastro que
arrasta
cintilantes
asas
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