domingo, 20 de maio de 2012

Carta 19/05/2012

Eu não sei escrever cartas.  Porque toda carta começa com um  “ Olá Fulano, quanto  tempo, tudo bem? “ ou  “Querido Fulano”, não sei, mas sempre começa com uma pequena introdução, para que o destinatário não seja atropelado por qualquer assunto com frases  do tipo “ Eu não sei escrever cartas”,  vindas de algum mal educado. Tudo bem, ninguém aprende se não pratica, mas por não saber dar início as coisas ( coisa que deveria ser mais simples para uma ariana),  por não saber escrever cartas,  assim como não sei me despedir, por não saber chegar de mansinho em qualquer conversa, é que eu evito tanto ter de faze-los. 
Semana passada eu fugi mesmo, fugi de escrever, fugi de falar e acabei tornando uma coisa simples em um problema desnecessário que eu gostaria de ter evitado. Estou falando tanto em evitar ações, em fugir de coisas  que para a maioria é simples, mas por algum motivo para mim não é, porque percebi que arranjei um dispositivo de fuga, uma forma de aumentar ou diminuir meu tempo e esse dispositivo trouxe junto dele uma desorganização mental,  e esse é o motivo dessa carta. Me dei conta disso quando comecei a ler “Estâncias”  do Manolo, onde ele diz:

“Pois o sono tornou-se um refúgio, dormir uma fuga.
Uma pré-disposição para esquecer-se de si.
Perder-se num outro inesperado, aleatório.
Dar-se entregue ao sono é descuidar do próprio eu, 
é fragilizar o estado de vigília a que se submete o sujeito desperto.
Procurar por sendas na vida para assim escapar dela mesma,
é encontrar outras possibilidades de consciência.
Mas sem consistência a consciência haverá de existir?
Sem negar as tensões que trazem os dias,
confesso: necessito descanso.
Após o longo período de mergulho.
Submergir para respirar.”

Provavelmente eu não veja como ele, mas nada faz mais sentido para mim no momento, do que esses escritos. Nunca precisei ficar tanto tempo acordada como esse ano, no entanto também nunca dormi tanto, era pensar em qualquer responsabilidade que meu coração disparava e logo depois eu sentia um sono incontrolável...Não, não acho que sou preguiçosa, acho apenas que venho sendo egoísta comigo mesma, por não querer experimentar coisas novas. Sei que durmo para fugir dos afazeres, mas errado ou não, faço isso por medo, porque de forma covarde, não quero ser responsável, faço isso na esperança de permanecer num tempo de infância, faço isso porque dormindo não tenho culpa de nada, porque sinto como se o tempo parasse e esperasse eu pensar na vida, em como resolver os problemas, encontro no sono uma serenidade que não tenho acordada, não tenho que cuidar nem de mim e posso experimentar um tempo, um espaço muito mais interessante do que o que tenho com os olhos abertos, porque dormindo posso saltar de um lugar para outro bem distante em um espaço de tempo ainda impossível de ser realizado fisicamente. Durmo, porque acredito no tempo como uma sucessão de camadas que se encostam, se cruzam e se afastam, como as linhas nos mapas, um tempo que é relativo e que existem em vários mundos e níveis de consciência, os quais eu acesso dormindo, devaneando...
 Com esse teletransporte que arranjei, que é dormir, o meu tempo  se tornou além de um tempo sonolento, um tempo confuso, durmo 5 minutos, tenho sonhos onde a temporalidade é de uma semana e quando acordo se passaram três horas. Se durmo as 14 horas e acordo as 14 e 30 do dia 18 penso que já estou no dia 19, então  estou em um futuro, tenho certeza de que estou no presente do dia 19, alguém me avisa que o dia ainda é 18, então eu volto para o passado, mas eu já estive no dia 19. Nessa altura, sinceramente já não sei o que é presente, já não sei se o tempo é pessoal, universal ou de ninguém, não sei mesmo, acho que não sei nem o que é tempo. Não sei se o tempo é o tempo da Talita, tempo de tempestade, temporal,  tempo de chuva, ou se o tempo é aquele de quando a minha avó  conta uma história para me repreender e começa a frase com: “Naquele tempo menina...as coisas não eram assim não...” Eu não  sei como eram, eu não sei que coisas são essas, eu não sei como são, talvez eu saiba se houver um futuro, ou não. Espero que um dia alguém  me explique, pois para mim o tempo é bastante espirituoso, me prega peças feito um saci.
Eu só sei que o tempo pode estar feio, porque quando está cinza lá fora, é isso que o meu pai fala... Mas a Talita pode achar o cinza bonito. Eu sei que já passou o tempo quando minha mãe me pergunta porque eu ainda não fiz alguma coisa. Sei que já passou o tempo quando sinto que preciso ir embora antes que alguém fique preocupado... Ou como quando era criança,  entrava pra tomar banho e lá fora estava claro e quando eu saia já estava escuro... É quando eu acho que aquela cicatriz feia na pele não faz mas diferença. Sei que passou o tempo quando eu vejo a paineira e ela não está mais florida ou quando a Talita conta que o Cláudio derreteu a chapa de metal dela, porque esqueceu e deixou muito tempo no ácido. Talvez sejamos uma chapa de metal com as linhas riscadas e o tempo seja um ácido que ao mesmo tempo que serve pra gravar as coisas, quando é de mais, nos faz esquecer, quanto mais tempo mais corrói e apaga, mas o próprio tempo  não perdoa esquecimentos, cura muita coisa, mas não perdoa nada...

Acho delicado falar de tempo... De qualquer forma, eu sei que fui sincera.


2 comentários:

  1. a escrita, a imagem, enfim... a arte é um mistério mesmo quando falamos em processo de criação. Esta carta da "demônia" (no mais bom e belo sentido) teve um outro significado para mim que acabei de ler. Enquanto li, parece que escutava a voz dela na varanda daquela casa do silêncio, linda casa da Nat, mas, também, "escutava" outros sentidos ecoando dentro de mim. Falarei sobre isto depois, quando reler a carta... o importante é reler e ler (quase) infinitas vezes o que se escreve. Mas, para postar aqui não precisa de tantas releituras, apenas sejam sinceros...

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  2. encontrar-se no outro, na experiencia que o outro consegue passar, que um dia desses nesse tempo aconteceu consigo mesmo. encontro-me nesse sono desesperado que aconchega, de estar no colo quente protegido do tempo, oferecendo abrigo e livre de perseguições e males.
    encontrar-me nessas fugas de não saber chegar, nem de despedidas,
    nos sono de 5 minutos e sonhos que duram dias e longas caminhadas de seguir e tentar fugir, nesses cinco intenso minutos.
    a preguiça que é fuga, pelo menos pra mim nesse momento, confesso sou preguiçoso em determinados momentos, como acordar para estudar. uma falta comigo mesmo.
    identifiquei com seu texto carol, muito inspira e emociona

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