Eu não sei escrever cartas. Porque toda carta começa com um
“ Olá Fulano, quanto tempo, tudo bem? “ ou “Querido Fulano”, não
sei, mas sempre começa com uma pequena introdução, para que o destinatário não
seja atropelado por qualquer assunto com frases do tipo “ Eu não sei
escrever cartas”, vindas de algum mal educado. Tudo bem, ninguém aprende
se não pratica, mas por não saber dar início as coisas ( coisa que deveria ser
mais simples para uma ariana), por não saber escrever cartas, assim
como não sei me despedir, por não saber chegar de mansinho em qualquer
conversa, é que eu evito tanto ter de faze-los.
Semana passada eu fugi mesmo, fugi de escrever, fugi de falar e acabei
tornando uma coisa simples em um problema desnecessário que eu gostaria de ter
evitado. Estou falando tanto em evitar ações, em fugir de coisas que para
a maioria é simples, mas por algum motivo para mim não é, porque percebi que
arranjei um dispositivo de fuga, uma forma de aumentar ou diminuir meu tempo e
esse dispositivo trouxe junto dele uma desorganização mental, e esse é o
motivo dessa carta. Me dei conta disso quando comecei a ler “Estâncias”
do Manolo, onde ele diz:
“Pois o sono tornou-se um refúgio, dormir uma fuga.
Uma pré-disposição para esquecer-se de si.
Perder-se num outro inesperado, aleatório.
Dar-se entregue ao sono é descuidar do próprio eu,
é fragilizar o estado de vigília a que se submete o
sujeito desperto.
Procurar por sendas na vida para assim escapar dela
mesma,
é encontrar outras possibilidades de consciência.
Mas sem consistência a consciência haverá de
existir?
Sem negar as tensões que trazem os dias,
confesso: necessito descanso.
Após o longo período de mergulho.
Submergir para respirar.”
Provavelmente eu não veja como ele, mas nada faz mais sentido para mim
no momento, do que esses escritos. Nunca precisei ficar tanto tempo acordada
como esse ano, no entanto também nunca dormi tanto, era pensar em qualquer
responsabilidade que meu coração disparava e logo depois eu sentia um sono
incontrolável...Não, não acho que sou preguiçosa, acho apenas que venho sendo
egoísta comigo mesma, por não querer experimentar coisas novas. Sei que durmo
para fugir dos afazeres, mas errado ou não, faço isso por medo, porque de forma
covarde, não quero ser responsável, faço isso na esperança de permanecer num
tempo de infância, faço isso porque dormindo não tenho culpa de nada, porque
sinto como se o tempo parasse e esperasse eu pensar na vida, em como resolver
os problemas, encontro no sono uma serenidade que não tenho acordada, não tenho
que cuidar nem de mim e posso experimentar um tempo, um espaço muito mais
interessante do que o que tenho com os olhos abertos, porque dormindo posso
saltar de um lugar para outro bem distante em um espaço de tempo ainda
impossível de ser realizado fisicamente. Durmo, porque acredito no tempo como
uma sucessão de camadas que se encostam, se cruzam e se afastam, como as linhas
nos mapas, um tempo que é relativo e que existem em vários mundos e níveis de
consciência, os quais eu acesso dormindo, devaneando...
Com esse teletransporte que arranjei, que é dormir, o meu
tempo se tornou além de um tempo sonolento, um tempo confuso, durmo 5
minutos, tenho sonhos onde a temporalidade é de uma semana e quando acordo se
passaram três horas. Se durmo as 14 horas e acordo as 14 e 30 do dia 18 penso
que já estou no dia 19, então estou em um futuro, tenho certeza de que
estou no presente do dia 19, alguém me avisa que o dia ainda é 18, então eu
volto para o passado, mas eu já estive no dia 19. Nessa altura, sinceramente já
não sei o que é presente, já não sei se o tempo é pessoal, universal ou de
ninguém, não sei mesmo, acho que não sei nem o que é tempo. Não sei se o tempo
é o tempo da Talita, tempo de tempestade, temporal, tempo de chuva, ou se
o tempo é aquele de quando a minha avó conta uma história para me
repreender e começa a frase com: “Naquele tempo menina...as coisas não eram
assim não...” Eu não sei como eram, eu não sei que coisas são essas, eu
não sei como são, talvez eu saiba se houver um futuro, ou não. Espero que um
dia alguém me explique, pois para mim o tempo é bastante espirituoso, me
prega peças feito um saci.
Eu só sei que o tempo pode estar feio, porque quando está cinza lá fora,
é isso que o meu pai fala... Mas a Talita pode achar o cinza bonito. Eu sei que
já passou o tempo quando minha mãe me pergunta porque eu ainda não fiz alguma
coisa. Sei que já passou o tempo quando sinto que preciso ir embora antes que
alguém fique preocupado... Ou como quando era criança, entrava pra tomar
banho e lá fora estava claro e quando eu saia já estava escuro... É quando eu acho que aquela cicatriz feia na pele não faz mas diferença. Sei que
passou o tempo quando eu vejo a paineira e ela não está mais florida ou quando
a Talita conta que o Cláudio derreteu a chapa de metal dela, porque esqueceu e
deixou muito tempo no ácido. Talvez sejamos uma chapa de metal com as linhas
riscadas e o tempo seja um ácido que ao mesmo tempo que serve pra gravar as
coisas, quando é de mais, nos faz esquecer, quanto mais tempo mais corrói e
apaga, mas o próprio tempo não perdoa esquecimentos, cura muita coisa,
mas não perdoa nada...
Acho delicado falar de tempo... De qualquer forma, eu sei que fui
sincera.
a escrita, a imagem, enfim... a arte é um mistério mesmo quando falamos em processo de criação. Esta carta da "demônia" (no mais bom e belo sentido) teve um outro significado para mim que acabei de ler. Enquanto li, parece que escutava a voz dela na varanda daquela casa do silêncio, linda casa da Nat, mas, também, "escutava" outros sentidos ecoando dentro de mim. Falarei sobre isto depois, quando reler a carta... o importante é reler e ler (quase) infinitas vezes o que se escreve. Mas, para postar aqui não precisa de tantas releituras, apenas sejam sinceros...
ResponderExcluirencontrar-se no outro, na experiencia que o outro consegue passar, que um dia desses nesse tempo aconteceu consigo mesmo. encontro-me nesse sono desesperado que aconchega, de estar no colo quente protegido do tempo, oferecendo abrigo e livre de perseguições e males.
ResponderExcluirencontrar-me nessas fugas de não saber chegar, nem de despedidas,
nos sono de 5 minutos e sonhos que duram dias e longas caminhadas de seguir e tentar fugir, nesses cinco intenso minutos.
a preguiça que é fuga, pelo menos pra mim nesse momento, confesso sou preguiçoso em determinados momentos, como acordar para estudar. uma falta comigo mesmo.
identifiquei com seu texto carol, muito inspira e emociona