quarta-feira, 30 de maio de 2012

O LUGAR MÍTICO DA MEMÓRIA Cláudia Cerqueira do Rosario



O LUGAR MÍTICO DA MEMÓRIA
Cláudia Cerqueira do Rosario
Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Mestre em Filosofia

Morpheus - Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 01, número 01, 2002
 
A Teogonia1 de Hesíodo, que nos narra a origem dos deuses na tradição grega, conta que no princípio surgiu Gaia (a Terra) de amplos seios, que antes de tudo gera para si própria um consorte, Urano (o Céu). Juntos produzem numerosa descendência. Entre outros seres fantásticos, a hierogamia primordial grega gera os Titãs, e entre eles Mnemósine. A palavra grega prende-se ao verbo mimnéskein, que significa "lembrar-se de". A titânida Mnemósine, assim, vem a configurar no universo mitológico grego a própria personificação da Memória.
Mas o mito nos diz mais. Ele nos diz que um dos Titãs, Cronos, depois de destronar o pai despótico e instaurar um governo ainda mais despótico, é por sua vez destronado por seu filho Zeus num terrível combate. Para celebrar, Zeus une-se durante nove noites consecutivas à Mnemósine, e desta união nascem nove filhas, as cantoras divinas que tinham por função primeira presidir as diversas formas do pensamento: sabedoria, eloqüência, persuasão, história, matemática, astronomia. São as nove Musas e a palavra grega que as designa, como assinala Junito Brandão2 , talvez se relacione a um termo que significaria "fixar o espírito sobre uma idéia, uma arte". Também à mesma família etimológica pertence a palavra "música" - o que concerne às Musas - e "museu" - o templo das Musas, onde elas residem ou onde alguém se adestra nas diversas artes.
A própria Teogonia se inicia com a invocação às Musas. O poeta rapsodo, o aedo, através da palavra cantada, guarda a visão de mundo e a consciência histórica do grupo social em que se gerou, ou seja, a comunidade pastoril anterior à formação das cidades na Grécia. Como assinala Torrano,




É através da audição deste canto que o homem comum podia romper os estreitos limites de suas possibilidades físicas de movimento e visão, transcender suas fronteiras geográficas e temporais, que de outro modo permaneceriam infranqueáveis, e entrar em contato e contemplar figuras, fatos e mundos que pelo poder do canto se tornam audíveis, visíveis e presentes. O poeta, portanto, tem na palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os bloqueios e distâncias espaciais e temporais, um poder que lhe é conferido pela Memória (Mnemosine) através das palavras cantadas (Musas).3
É o dom de Mnemósine: conduzindo o côro das Musas, confundindo-se mesmo com elas, preside a função poética. A Grécia arcaica da mesma forma que diviniza a função psicológica da Memória, diviniza a possibilidade de suas funções: a poesia é uma espécie de possessão pelas Musas, de delírio divino que toma o poeta e o transforma no intérprete de Mnemósine, daquela que tudo sabe, e como nos canta Hesíodo "inspiraram-me um canto divino para que eu gloreie o futuro e o passado". 4
Mas, como assinala Vernant5, a atividade do poeta orienta-se preponderantemente para o passado, e mais especificamente para o "tempo original". A Mnemósine mítica aparece mesmo no início dos tempos, filha de uma primeira geração divina, presente naquele tempo originário que o canto de Hesíodo nos apresenta possuído pela inspiração das Musas. Não é, pois, um passado qualquer que se apresenta no canto do poeta: é a própria possibilidade de ser do mundo, o próprio momento gerador cujas conseqüências se vêem no mundo presente, neste mundo visível em que vivemos. O canto das Musas evoca Memória que presentifica níveis diferentes de ser: nos leva ao momento mesmo em que se constituem Terra e Céu , em que Zeus combate os Titãs, em que o mundo vem a ser o que é. O canto das Musas é, assim, revelação e conhecimento do mundo.
Muito nos pode dizer o mito de Mnemósine e das Musas com relação ao nosso sentido contemporâneo de Memória. Para percebê-lo, podemos explorar o próprio sentido da palavra "mito" . Como nos assinala Torrano,



My'thos é uma das muitas palavras que a língua de Homero e de Hesíodo dispõe para designar o ato da fala. Nessa riqueza vocabular, correspondente à espantosa exatidão com que o homem na grande época do mito do mundo percebe e se dá conta dos diversos matizes da concretitude e da pluralidade, descobre-se um senso de realidade cujo modo privilegiado de conhecimento é a intuição instantânea do sentido totalizante do ser em seres imediatamente dados em cada caso. 6
O mito é assim, antes de tudo, uma ontofania, ou seja uma manifestação de ser. Torna presente o próprio fenômeno da existência em sua plenitude de ser e de sentido, nos coloca diante da própria gênese dos deuses e homens. O mito é a palavra que revela o ser. Revela-o, note-se bem. Não o conceitua ou esgota, ou delimita-o a um sentido. O mito é antes, a revelação da própria pluralidade de sentido, ou do próprio excedente de sentido que o conceito, por sua natureza, não pode conter. Por isto, a fala do mito não conceitua, mas revela e mostra. E mostra como ser, como o "sendo" do tempo original, em que constituiu-se o ser do mundo, dos deuses e dos homens. E o mito, nas sociedades arcaicas, tem o papel essencial de re-atualizar aquilo que se passou na origem dos tempos, o que torna fundamental seu conhecimento. Mircea Eliade nos diz :



Não só porque os mitos fornecem uma explicação do Mundo e da própria maneira de estar no mundo, mas sobretudo porque, ao recordar, ao reactualizá-los, ele é capaz de repetir o que os Deuses, os Heróis ou os Antepassados fizeram ab origine. Conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. Por outras palavras, aprende-se não só como as coisas passaram a existir, mas também onde as encontrar e como fazê-las ressurgir quando elas desaparecem. 7
O termo "recordar" é aqui fundamental. No contexo mítico, recordar significa resgatar um momento originário e torná-lo eterno em contraposição à nossa experiência ordinária do tempo como algo que passa, que escoa e que se perde. A recordação, como resgate do tempo, confere desta forma imortalidade àquilo que ordinariamente estaria perdido de modo irrecuperável sem esta re-atualização. Traz de novo a presença dos Deuses, os feitos exemplares que forjam os Heróis e que perseguimos ainda hoje como modelos exemplares, nos coloca novamente em presença das tradições dos Antepassados que nos tornaram o que somos. Assim, como dissemos, o papel da memória não é apenas o de simples reconhecimento de conteúdos passados, mas um efetivo reviver que leva em si todo ou parte deste passado. É o de fazer aparecer novamente as coisas depois que desaparecem. É graças à faculdade de recordar que, de algum modo, escapamos da morte que aqui, mais que uma realidade física, deve ser entendida como a realidade simbólica que cria o antagonismo-chave com relação ao nosso tema: o esquecimento. O esquecimento é a impermanência, a mortalidade. E não nos dirá Platão mais tarde que "a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal " ? 8
O lugar da Memória é, pois, o lugar da imortalidade. Em Platão, o conhecimento é compreendido como reminiscência: é o amor do belo que desperta na alma as lembranças do conhecimento das idéias perfeitas, obscurecidas pela encarnação. Por sua vez, as formas da atividade amorosa - procriação, poesia, legislação - garantem a "memória das virtudes" que conservamos, e garantem "imortal glória e memória" às obras produzidas e deixadas às gerações, como as obras de Homero e Hesíodo.9 É a atividade amorosa que gera - filhos ou obras . No caso dos filhos, perpetua-se a memória do sangue, ou, como podemos dizer hoje em dia, dos genes da espécie humana. No caso das obras, permanecem a cultura, os valores, as expressões máximas do pensamento e do sentimento humano coletivos. Em ambos os casos, invisível sob o inexorável transcorrer da duração, sob as inevitáveis transformações seculares, o passado presentifica-se em um gesto, em uma reminiscência ou lembrança que eclode na releitura de um mito, na presença de um objeto que nos evoca um tempo que já não é o nosso mas que contribuiu de modo efetivo para que sejamos o que somos. Em suma, a memória não está apenas no passado trazido à tona pela recordação, mas está presente em nossos corpos, em nosso idioma, no que valorizamos, no que tememos e no que esperamos. A memória nos identifica como indivíduos e como coletividade. A memória permite mesmo que estas linhas sejam escritas em seqüência coerente.
Quando pensamos em "passado", temos a tendência a imaginá-lo como algo pertencente à um tempo longínqüo, datado em cronologias distantes. O passado se parece com a Grécia Clássica, com o Império Romano, com o Mundo Medieval, com as inverossímeis pirâmides egípcias, com os vasos etruscos, com os cacos das civilizações perdidas. Confundimos ordináriamente o passado com o "não ser mais". Com o arcaico, com o anacrônico, com o superado. Esquecemos - perigo supremo - que o final desta frase já é passado, que ao acabarmos de pronunciar a palavra "presente" ela não está mais em ato. Ao pensarmos o ser, tendemos a conjugá-lo no passado, no presente e no futuro. Pensamos no que foi, no que é e no que será. Esquecemos o gerúndio; o "sendo" que nos coloca diante da continuidade que relativiza estes lugares estanques de tempo, e faz com que sejamos, a rigor, forjados nesta sucessão incontável de instantes, minutos, horas, dias, anos, séculos e milênios nos quais se teceram a história coletiva da humanidade e mesmo nossos seres individuais. O que fomos está, pois, contido, conscientemente ou não, naquilo que somos agora .
Dizem os físicos que toda a matéria do Universo estava contida numa única unidade infinitesimalmente pequena e infinitamente densa. Houve uma grande explosão, e desde então, o Universo expande-se a uma velocidade espantosa. Esta explosão marca o início do tempo, pelo menos tal como o conhecemos. Acreditam os físicos também que esta expansão terá um limite, depois do qual todo o Universo fará o movimento inverso de retração, o que determinará seu fim ou, pelo menos, a volta à seu estado inicial. Esta é, sucintamente, a cosmologia na qual cremos em final do século XX: é a explicação científica de nossa origem em grande escala.10 Uma das conclusões decorrentes de tal tese é a de que, já que todo o Universo estava condensado naquele início, de algum modo estavamos presentes àquele momento inicial. Ou seja: a matéria e/ou energia de que somos constituídos vem atravessando bilhões de anos, e atravessará outros tantos, transformando-se e diferenciando-se em infinitas formas, em infinitos seres, desde a estrela mais brilhante que nossa tecnologia pode observar até folha nova e tenra que nasce no vaso em nossa sala de estar. Em nossos corpos há algo do começo dos tempos que perdura, há vestígios do passado mais remoto que o gênio humano foi capaz de conceber. Em nossos corpos, se estão certos nossos homens da ciência, está presente algo do início do mundo.
Ora, não teríamos aqui, em nossa cosmologia tecno-científica e racional, alguns vestígios da visão mítica do mundo? Não há, pois, nos seres do presente a presentificação de elementos remotos do "tempo original", dos "princípios" em que se deu o próprio vir a ser do mundo que agora dissecamos à exaustão nas diversas especialidades daquilo que chamamos Ciência? E não seria a Ciência, como as Musas do rapsodo grego, também uma filha da Memória?
As Musas cantam o fazer-se contínuo do mundo, o fazer-se do pensamento. Cantam mesmo o fazer das artes. O museu, templo das Musas, era originariamente não apenas sua moradia, mas o lugar de adestramento das artes, onde o conhecimento adquirido, ao ser lembrado, permite estabelecer um nexo com o conhecimento novo. Assim, a Memória é não apenas importante para a retenção do conhecimento, mas fundamental para a elaboração do conhecimento científico, tecnológico e filosófico. Sem a memória que permita a presentificação do conhecimento não há o passo adiante. A memória é, assim, de certo modo, mãe da inspiração: pois que é o nosso fazer contínuo além fabricação do passado que se faz a cada instante ?
A noção de Memória evidentemente transformou-se muito, desde o tempo em que era vivida como a divindade que presentificava o passado e gerou as filhas que presidiam a função da arte e da ciência. Foi analisada, codificada em funções fisiológicas e psíquicas , recebeu diferentes atribuições de valor e importância dentro das inúmeras teorias do conhecimento, até ser, em nossa cultura contemporânea, profundamente desvalorizada na obsessão pelo "novo" e na proliferação do descartável. Reduzimos o objeto da memória ao "não-ser". Pode-se mesmo, deste ponto de vista, perguntar: qual o interesse para o presente de uma acepção mítica de Memória?
O mito nos responde: a Memória liga o presente ao passado, mostra ao ser que existe como se constituiu e no que se fundamenta para vir a ser. Mostra-nos identidade e diferença, nos aponta a repetição, permite que nos admiremos diante do novo. Pois não se diz que é "novo" aquilo diante do qual procuramos referências na memória e não encontramos? E, no instante seguinte àquele em que é percebido, o novo pertence ao passado e ao domínio da Memória.
Não nos lembramos de tudo, nem pessoal nem coletivamente. Lembramos aquilo que tem significado, aquilo que é importante. Assim, vivemos entre a memória e o esquecimento, talvez porque vivamos entre o ser e o não ser mais. Certamente precisamos de ambos para viver. A memória nos faz lembrar de quem somos e o que nos faz querer ir a algum lugar. Quanto ao esquecimento, não é aqui lugar dele agora: é tema para outra reflexão.

NOTAS:
1 HESÍODO. Teogonia, A Origem dos Deuses. Estudo e tradução de Jaa Torrano, São Paulo: Iluminuras, 1992.
2 BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega. vol. I, Petrópolis: Ed. Vozes, 1994, p.202-3.
3 TORRANO, Jaa. "O Mundo Como Função de Musas". In: HESÍODO. Teogonia ...p.16.
4 HESÍODO. Teogonia ... p. 31-32.
5 VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os Gregos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, Ed. da Universidade de São Paulo, 1993. p. 73-4.
6 TORRANO, Jaa. O Sentido de Zeus, São Paulo: Iluminuras, 1996, p. 25.
7 ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Lisboa: Ed. 70, 1986, p. 19.
8 PLATÃO. O Banquete. Coleção Pensadores, São Paulo: Ed. Abril, 1972, p. 45.
9 PLATÃO. O Banquete, p. 46.
10 a respeito, ver HAWKING, Stephen. Uma Breve História do Tempo. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.

terça-feira, 29 de maio de 2012

28 05 2012
hoje pensei que não iria escrever palavras para outros lerem. comentaram, - mas é assim que ele busca as referencias pra escrita, (não foi bem assim), mas  foi isso. isso relacionado a voltar caminhando pra casa de noite, pois muitos não entendem essa ação, caminhar um pouco mais de uma hora pra chegar em algum lugar, - e você não tem medo, é o que muitos dizem. andando, um senhor que vem na contra mão: - garoto, hoje é segunda-feira?, - sim. saímos dando risada, ele e eu, por uma felicidade de encontrar historias em um dia pensativo
que corre distante
que as águas estão levando no curso do rio, água parada, água corrente.
dias de homens idosos, admiração de uma vida e sabedoria de chegar a esse ponto, seja como for, mas chegar vivendo,
vivendo, vivendo.
senhor empurrando uma cadeira de rodas, perto de um bingo, senhora sentada, imagino ser um casal em seu curso de alegria, prazer e dor, satisfação em buscar no que se pode essa satisfação que o viver oferece.
dia de homens, garotos no mesmo caminho, escuro, baixada, subida, ponte com poça d'água e barro verde que não pude ver ao alcance dos olhos, e era verde, imagino agora, assim como poderia ser amarelo.
mãos atrás que se seguram, esquentam os pequenos ossos que como pinças agarram umas as outras, senhor calvo com caminhar mais alto que o som da noite, as motos passam distantes, o carro é devorado pelo vento, mas o que ouço mesmo são esses passos do senhor calvo segurando as mãos atras, passos largos, distante uma perna da outra, passos para fora,
chutar os lados que a mata fechada de colonhão obriga a desfaze-la para a passagem.
um pouco antes dos passos, um senhor dobra a esquina, um susto para minha pele que já fria pelo vento de fim de outono, senhor branco laranja de blazer de couro preto, vindo pela calçada, passa sem olhar para trás, alguns segundos mais frios que os outros.
pequeno mundo que os passos conseguem passar, pequeno mundo que os pés conseguem pisar, mesmo calçados, o pequeno espaço de contato nesse um pouco mais de uma hora,
frio e quente se contorcem no corpo que por calçada e terra passam
que pelo frio e somente de camiseta seguem, pois o corpo suando com o vento gelado congelando o suor, fazendo-o voltar pelas portas que saíram.
esse pequeno mundo também existe.

domingo, 27 de maio de 2012

“O jardim dos caminhos que se bifurcam”, Jorge Luis Borges



“O jardim dos caminhos que se bifurcam”, Jorge Luis Borges
O jardim de caminhos que se bifurcam é uma enorme charada, ou parábola, cujo tema é o tempo; essa causa recôndita proíbe-lhe a menção desse nome. Omitir sempre uma palavra, recorrer a metáforas ineptas e a perífrases evidentes, é quiçá o modo mais enfático de indicá-la. É o modo tortuoso que preferiu, em cada um dos meandros de seu infalível romance, o oblíquo Ts’ui Pen. Confrontei centenas de manuscritos, corrigi erros que a negligência dos copistas introduziu, conjurei o plano desse caos, restabeleci, acreditei restabelecer, a ordem primordial, traduzi a obra toda: consta-me que não usa uma só vez a palavra tempo. A explicação é óbvia: O jardim de caminhos que se bifurcam é uma imagem incompleta, mas não falsa, do universo tal como o concebia Ts’ui Pen. Diferentemente de Newton e de Schopenhauer, seu antepassado não acreditava num tempo uniforme, absoluto. Acreditava em infinitas séries de tempos, numa rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que secularmente se ignoram, abrange todas as possibilidades. Não existimos na maioria desses tempos; nalguns existe o senhor e não eu. Noutros, eu, não o senhor; noutros, os dois. Neste, que um acaso favorável me surpreende, o senhor chegou a minha casa; noutro, o senhor, ao atravessar o jardim, encontrou-me morto; noutro, digo estas mesmas palavras, mas sou um erro, um fantasma. (...) 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

o tempo e a garrafa




Marca d'Água


marca d’água para Walter Benjamin

o tempo estanca
verte da pedra
veios de leite
clara fonte
da fronte à tez
em lisuras de pérola
a fôrma em nacar

aquilo que se sabe
logo não mais se terá diante de si
torna-se imagem

o sono que trai a tarde
a paisagem à janela
já é velocidade
fronteiras todas em movimento

até a memória
é passageira
sem ninguém a confirmar testemunho
ela retorna
e quando qualquer registro
a impossibilita
ela se revela íntegra
impulso involuntário
e o fragmento
vale pelo todo

Inútil paisagem (a paisagem desenhada deve perder toda utilidade pragmática, deve ser o resultado de um tempo em compasso, enlevo, contemplação, respiração, tempo pleno)


Inútil Paisagem


pouco sólida educação
no azul
mas voltada
à sensibilização
retiniana
a depurar
por consulta à museus
e outras paragens
entre paisagens
e camadas sobrepostas da urbe
o olhar periférico
peristáltico
cruza com um olhar de frente
firme em seu centro
mestre
a quem recorre neste azul
que não foge mais
às letras

insiste

do desenho como um naufrágio


do desenho como um naufrágio

linhas paralelas, sequências horizontais
o caderno com o traçado das correntes marinhas
diário de bordo, roteiro de céus
nuvens em deslocamento, brisa, o vácuo do vento
desenhos a serem decifrados
desenhos a capturar tempestades
o amanhecer revela um traço

sem mais distâncias
parelelos
o vazio
tão próximo
já está

da cunha que lavra a prata
navega letra, história, relato
surdo
cegueira da vertigem
só olfato
a náusea
na corrente que traga qualquer rumo
redemoinho

os lençóis emaranhados
mapa, cartografia
da cama desfeita
imprimindo os corpos e seus ritmos
lentos de magma, rastejando
a preguiça manhosa amanhece
em cheiros, registros
nas dobras líquidas, veios, membranas
vertedouro das águas
à boca a sede vinca
a concha em roda
desorientada
línguas de anêmona no céu da boca
a voz que tropica
anasalada
sufoca em sereia
rabo e açucenas
seus segredos afogados

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fiz uma pasta do projeto no xerox do CCH - número 425. Tem outros textos também, se quiserem podem copiar. Mas os textos que devem ser lidos e comentados em futuras cartas no próximo encontro são os seguintes: Introdução do livro "Intenções" de Oscar Wilde - escrita pelo João do Rio; O poema Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro, assim como um texto em prosa sobre este heterônimo. Os demais são textos importantes na literatura brasileira e duas traduções do Gênese para que vcs opinem sobre qual a melhor tradução.

terça-feira, 22 de maio de 2012

AVISO IMPORTANTE

A TALITA TINHA UMA CARTA PARA LER E NÃO LEU NAQUELA NOITE NA CASA DA NATALIA ZIT. PASSEI SEM QUERER NA FRENTE, ATRAVESSANDO... E ELA ME DISSE ISTO SOMENTE HOJE NA UEL; QUE TINHA UMA CARTA PRA LER... SUGERI QUE POSTASSE A CARTA AQUI. TALITA... ESCREVA-NOS A CARTA, POR FAVOR...

as últimas horas de dois ponteiros




O tempo da flor
Nanquim sobre papel, 16,5 cm x 20 cm.
Caderno de paisagens íntimas, 2012.
Sobre o último encontro. Achei maravilhoso. Entretanto, gostaria de manifestar que por mais linda que seja a casa da Natália, acho que o lugar mais adequado para os encontros do sabadotempo é a sala da gravura, sem vinho, com pouca comida, sem complicações de encontros em pontos de ônibus, desencontros etc., o grupo está aumentando e não pode passar desse número, que já nem sei quantos elementos temos no grupo, mas precisamos fechar o grupo, pontuar o espaço e falar de tempo que é quase uma conversa infinita...

preguiça

pra ver o que escrevi é preciso selecionar todo o texto, desculpa mas estou com preguiça de digitar novamente

a partir da vivencia


21 05 2012
os pés na calçada concreto poeira que nem percebo, atravessando asfalto
as vezes terra e grama como espumas e nuvens que consigo desfrutar
nessas andanças que encontro seres mais perdidos que eu mesmo consigo ser
- oh irmão, tem cinquenta centavos pra inteira o álcool pra fazer a comida.
...
sobre os pés no concreto frio, desloco um apos o outro
sob estrelas e céu nublado mesmo em dia de estrelas radiantes, abundantes
subindo:
que horas são? sou de bem, não quero fazer mal - quer comprar uma jaqueta?... dez reais... pra que você acha? eu sei, só estou sem grana...
- cuidado com isso, muito perigoso e traiçoeiro...
e desce perdido a procura, isso meia noite, já tarde pra um bem arrumado que aparenta trabalhar amanhã de manhã
andar à noite encontro pessoas perdidas
mais que eu
e ainda consigo aconselhar
obrigado estar ciente, mesmo alterado
pois o ar noturno embriaga o ser que procura
caminhar e pensar, alucinar palavras de um dia vivencia

domingo, 20 de maio de 2012

Carta 19/05/2012

Eu não sei escrever cartas.  Porque toda carta começa com um  “ Olá Fulano, quanto  tempo, tudo bem? “ ou  “Querido Fulano”, não sei, mas sempre começa com uma pequena introdução, para que o destinatário não seja atropelado por qualquer assunto com frases  do tipo “ Eu não sei escrever cartas”,  vindas de algum mal educado. Tudo bem, ninguém aprende se não pratica, mas por não saber dar início as coisas ( coisa que deveria ser mais simples para uma ariana),  por não saber escrever cartas,  assim como não sei me despedir, por não saber chegar de mansinho em qualquer conversa, é que eu evito tanto ter de faze-los. 
Semana passada eu fugi mesmo, fugi de escrever, fugi de falar e acabei tornando uma coisa simples em um problema desnecessário que eu gostaria de ter evitado. Estou falando tanto em evitar ações, em fugir de coisas  que para a maioria é simples, mas por algum motivo para mim não é, porque percebi que arranjei um dispositivo de fuga, uma forma de aumentar ou diminuir meu tempo e esse dispositivo trouxe junto dele uma desorganização mental,  e esse é o motivo dessa carta. Me dei conta disso quando comecei a ler “Estâncias”  do Manolo, onde ele diz:

“Pois o sono tornou-se um refúgio, dormir uma fuga.
Uma pré-disposição para esquecer-se de si.
Perder-se num outro inesperado, aleatório.
Dar-se entregue ao sono é descuidar do próprio eu, 
é fragilizar o estado de vigília a que se submete o sujeito desperto.
Procurar por sendas na vida para assim escapar dela mesma,
é encontrar outras possibilidades de consciência.
Mas sem consistência a consciência haverá de existir?
Sem negar as tensões que trazem os dias,
confesso: necessito descanso.
Após o longo período de mergulho.
Submergir para respirar.”

Provavelmente eu não veja como ele, mas nada faz mais sentido para mim no momento, do que esses escritos. Nunca precisei ficar tanto tempo acordada como esse ano, no entanto também nunca dormi tanto, era pensar em qualquer responsabilidade que meu coração disparava e logo depois eu sentia um sono incontrolável...Não, não acho que sou preguiçosa, acho apenas que venho sendo egoísta comigo mesma, por não querer experimentar coisas novas. Sei que durmo para fugir dos afazeres, mas errado ou não, faço isso por medo, porque de forma covarde, não quero ser responsável, faço isso na esperança de permanecer num tempo de infância, faço isso porque dormindo não tenho culpa de nada, porque sinto como se o tempo parasse e esperasse eu pensar na vida, em como resolver os problemas, encontro no sono uma serenidade que não tenho acordada, não tenho que cuidar nem de mim e posso experimentar um tempo, um espaço muito mais interessante do que o que tenho com os olhos abertos, porque dormindo posso saltar de um lugar para outro bem distante em um espaço de tempo ainda impossível de ser realizado fisicamente. Durmo, porque acredito no tempo como uma sucessão de camadas que se encostam, se cruzam e se afastam, como as linhas nos mapas, um tempo que é relativo e que existem em vários mundos e níveis de consciência, os quais eu acesso dormindo, devaneando...
 Com esse teletransporte que arranjei, que é dormir, o meu tempo  se tornou além de um tempo sonolento, um tempo confuso, durmo 5 minutos, tenho sonhos onde a temporalidade é de uma semana e quando acordo se passaram três horas. Se durmo as 14 horas e acordo as 14 e 30 do dia 18 penso que já estou no dia 19, então  estou em um futuro, tenho certeza de que estou no presente do dia 19, alguém me avisa que o dia ainda é 18, então eu volto para o passado, mas eu já estive no dia 19. Nessa altura, sinceramente já não sei o que é presente, já não sei se o tempo é pessoal, universal ou de ninguém, não sei mesmo, acho que não sei nem o que é tempo. Não sei se o tempo é o tempo da Talita, tempo de tempestade, temporal,  tempo de chuva, ou se o tempo é aquele de quando a minha avó  conta uma história para me repreender e começa a frase com: “Naquele tempo menina...as coisas não eram assim não...” Eu não  sei como eram, eu não sei que coisas são essas, eu não sei como são, talvez eu saiba se houver um futuro, ou não. Espero que um dia alguém  me explique, pois para mim o tempo é bastante espirituoso, me prega peças feito um saci.
Eu só sei que o tempo pode estar feio, porque quando está cinza lá fora, é isso que o meu pai fala... Mas a Talita pode achar o cinza bonito. Eu sei que já passou o tempo quando minha mãe me pergunta porque eu ainda não fiz alguma coisa. Sei que já passou o tempo quando sinto que preciso ir embora antes que alguém fique preocupado... Ou como quando era criança,  entrava pra tomar banho e lá fora estava claro e quando eu saia já estava escuro... É quando eu acho que aquela cicatriz feia na pele não faz mas diferença. Sei que passou o tempo quando eu vejo a paineira e ela não está mais florida ou quando a Talita conta que o Cláudio derreteu a chapa de metal dela, porque esqueceu e deixou muito tempo no ácido. Talvez sejamos uma chapa de metal com as linhas riscadas e o tempo seja um ácido que ao mesmo tempo que serve pra gravar as coisas, quando é de mais, nos faz esquecer, quanto mais tempo mais corrói e apaga, mas o próprio tempo  não perdoa esquecimentos, cura muita coisa, mas não perdoa nada...

Acho delicado falar de tempo... De qualquer forma, eu sei que fui sincera.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Maurice Blanchot, "O encontro do imaginário"






Maurice Blanchot, "O encontro do imaginário",  
tradução Leyla Perrone-Moisés




“As Sereias: consta que elas cantavam, mas de uma maneira que não satisfazia, que apenas dava a entender a em que direção se abriam as verdadeiras fontes e a verdadeira felicidade do canto. Entretanto, por seus cantos imperfeitos, que não passavam de um canto ainda por vir, conduziam o navegante em direção àquele espaço onde o cantar começava de fato. Elas não o enganavam, portanto, levavam-no realmente ao objetivo. Mas, tendo atingido o objetivo, o que acontecia? O que era esse lugar? Era aquele onde só se podia desaparecer, porque a música, naquela região de fonte e origem, tinha também desaparecido, mais completamente do que em qualquer outro lugar do mundo; mar onde, com orelhas tapadas, soçobravam os vivos e onde as Sereias, como prova de sua boa vontade, acabaram desaparecendo elas mesmas.
De que natureza era o canto das Sereias? Em que consistia seu defeito? Porque esse defeito o tornava tão poderoso? Alguns responderam: era um canto inumano – um ruído natural, sem dúvida (existem outros?), mas à margem da natureza, de qualquer modo estranho ao homem, muito baixo e despertando, nele, o prazer extremo de cair, que não pode ser satisfeito nas condições normais da vida. Mas, diziam outros, mais estranho é o encantamento: ele apenas reproduzia o canto habitual dos homens, e porque as Sereias, que eram apenas animais, lindas em razão do reflexo da beleza feminina, podiam cantar como cantam os homens, tornavam o canto tão insólito que faziam nascer, naquele que o ouvia, a suspeita da inumanidade de todo canto humano. Teria sido então por desespero que morreram os homens apaixonados por seu próprio canto? Por um desespero muito próximo do deslumbramento. Havia algo de maravilhoso naquele canto real, canto comum, secreto, canto simples e cotidiano, que fazia reconhecer de repente, cantado irrealmente por potências estranhas e, por assim dizer, imaginárias, o canto do abismo que, uma vez ouvido, abria em cada fala uma voragem e convidava fortemente a nela desaparecer.
Não devemos esquecer que esse canto se destinava a navegadores, homens do risco e do movimento ousado, e era também ele uma navegação: era uma distância, e o que revelava era a possibilidade de percorrer essa distância, de fazer, do canto, o movimento em direção ao canto, e desse movimento, a expressão do maior desejo. Estranha navegação, mas em busca de que objetivo? Sempre foi possível pensar que todos aqueles que dele se aproximaram apenas chegaram perto, e morreram por impaciência, por haver prematuramente afirmado: é aqui; aqui lançarei âncora. Segundo outros, era, pelo contrário, tarde demais: o objetivo havia sido sempre ultrapassado; o encantamento, por uma promessa enigmática, expunha os homens a serem infiéis a eles mesmos, a seu canto humano e até à essência do canto, despertando a esperança e o desejo de um além maravilhoso, e esse além só representava um deserto, como se a região-mãe da música fosse o único lugar totalmente privado de música, um lugar de aridez e secura onde o silêncio, como o ruído, barrasse, naquele que havia tido aquela disposição, toda via de acesso ao canto. Havia pois um princípio malévolo naquele convite às profundezas? Seriam Sereias, como habitualmente nos fazem crer, apenas vozes falsas que não deviam ser ouvidas, o engano e a sedução aos quais somente resistiam os seres desleais e astutos?
Houve sempre, entre os homens, um esforço pouco nobre para desacreditar as Sereias, acusando-as simplesmente de mentira: mentirosas quando cantavam, enganadoras quando suspiravam, fictícias quando eram tocadas; em suma, inexistentes, de uma inexistência pueril que o bom senso de Ulisses é suficiente para exterminar.
É verdade, Ulisses as venceu, mas de que maneira? Ulisses, a teimosia e a prudência de Ulisses, a perfídia que lhe permitiu gozar do espetáculo das Sereias sem correr risco e sem aceitar as conseqüências, aquele gozo covarde, medíocre tranqüilo e comedido, como convém a um grego da decadência, que nunca mereceu ser o herói da Ilíada, aquela covardia feliz e segura, aliás fundada num privilégio que o coloca fora da condição comum, já que os outros não tiveram direito à felicidade da elite, mas somente ao prazer de ver seu chefe se contorcer de modo ridículo, com caretas de êxtase no vazio, direito também de dominar seu patrão (nisso consiste, sem dúvida, a lição que ouviam, o verdadeiro canto das Sereias para eles): a atitude de Ulisses, a espantosa surdez de quem é surdo porque ouve, bastou para comunicar às sereias um desespero até então reservado aos homens, e para fazer delas, por desespero, belas moças reais, uma única vez reais e dignas de suas promessas, capazes pois de desaparecer na verdade e na profundeza de seu canto.
Vencidas as sereias, pelo poder da técnica, que pretenderá sempre jogar sem perigo com as potências irreais (inspiradas), Ulisses não saiu porém ileso. Elas o atraíram para onde ele não queria cair e, escondidas no seio da Odisséia, que foi seu túmulo, elas o empenharam, ele e muitos outros, naquela navegação feliz, infeliz, que é a da narrativa, o canto não mais imediato mas contado, assim tornado aparentemente inofensivo, ode transformada em episódio.”

O ECO DE MIL SINOS DE PRATA

O eco de mil sinos de prata
emudece
ante o labor da aranha
O tempo emudece
na cegueira do ar
na sua geografia nula
Que queres de mim
matéria insensível?
Nas coisas conhecidas
o verbo ser
emudece
 
 
Ana Hatherly

O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando. 
 
 
Ana Hatherly

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Como é essa qualidade do tempo? Não deveria ser quando os fatos estão em sintonia? Porque um acidente de avião é resultado do tempo qualitativo? Há em mim um medo muito forte de não saber perceber quando algo está maduro para ser vivido. E se eu deixar passar uma vivência que teria mudado minha vida para sempre? Na verdade qualquer decisão, seja ela a mais simples e banal, interfere em nossa trajetória. Como, então, saber se as escolhas são as certas, as melhores? Tenho a impressão de que mesmo evitando, algumas vivências insistem em serem vividas, a fim de mostrar-nos algo. Pensando assim não vale a pena ficar evitando-as. Mas como, se não sabemos se é o melhor, se realmente as queremos. Lei da Atração? Destino? Ou foram nossos passos anteriores que nos levaram ao enfrentamento da escolha por determinada vivência? E como fica o tempo em relação a tudo isso? É ele quem está regendo o ritmo dos acontecimentos? Talvez. Muito provavelmente essa seja sua função. Acompanhar. Compreender. Pressionar. Impulsionar. Esgotar. Encerrar. Curar. Permitir renascer. Infinitas são as funções que criamos para esse personagem invisível.

JUSTIFICATIVA

DECIDI, e já peço perdão pela atitude hierárquica e contraditória, deixar só eu e o Marcos como administradores. O motivo é bem simples, como nós teremos que organizar a pesquisa, achei mais conveniente vcs todos publicarem na entradatempo e nós  dois selecionaremos essas publicações para as outras páginas, nem sei se isto é possível, mas vou tentar depois. Vamos continuar nos comunicando pela entradatempo. Gostaria muito que este blog não virasse um micro facebook.

Meus braços se abrem como asas enormes capazes de me levarem aonde meus instintos me permitirem. Tudo pode ser controlável, mas pra que? Porque controlar? Porque ter segurança sempre? Porque controlar o tempo se é o em sua perda que esta a essência do intimo. E a perda do espaço? É possível projetar-se para um lugar tão leve que tudo flutua. 

Tudo é suave e puro. Mergulhar no infinito sem temer o que ele possa esconder. Porque o inesperado é tão evitado. E como é viver a espera da surpresa e do arrebatamento? Como ir de encontro como o surpreendente?

A chuva que cai no consciente faz aflorar a dança da alma. O que era vontade transforma-se em raio luminoso que atravessa as paredes do possível. O corpo é sensação pura. É vibrante.

Meus pés voltam lentamente à superfície da razão. Tudo é novamente controlável, porem mais leve.

domingo, 13 de maio de 2012


esculpir o tempo poético

esculpir o tempo


olho de gato
no fundo da xícara
cheia de café,
pupila vermelha em caleidoscópio,
bússola do tempo
a girar por reflexos,
fissuras da memória
em quadrantes e estações.




pensei um pouco sobre o tempo, saiu isso:





o tempo palpitante
pulsatilla
Lachesis
a vida a que destina
                       retira

                       aguarde

Cloto, Átropos
tempo em repouso
pousa a folha
lentamente
como o pluma roça a pele
toca a superfície d’água

o rio já corre
beija a vida
lava
leva a calma
traz a fama
reclama
o tempo
sem ressalvas




e aqui tentativa de brincadeira de fazer uma quadra que não saiu quadra, 

Moura Torta
o tempo é uma porta

Moiras loiras
seu tempo foi das loiças

louça quebrada
horas mortas
cerzindo o ruído
roca mouca

agora varremos os cacos do chão









o mistério não se arrebata
fuligem
varrendo todo dia
o fundo da loja
ourives lapida diamantes
trinta anos
guarda pó
um rastro que arrasta
cintilantes asas



                              
                                                           Marcos Aulicino


Nosso querido pastor, Claudio Garcia!


Gente, fiz fotos à noite, com alta exposição e vejam os resultados! Estou encantada!












sexta-feira, 11 de maio de 2012


Experiência artística: De encontro com o problema


À medida que os dias foram passando e eu fui vendo que nada ou praticamente nada estava sendo produzido e fui entrando em choque. Atingi um estado de angustia e tristeza tão intenso que não era mais capaz de permanecer em casa. Saí então, com a câmera na mão, para tentar encontrar uma inspiração, um pensamento ou qualquer ponto luminoso. Conforme andava e observava a natureza ao meu redor, novas sensações me dominaram. Ora tentava me manter calma e receptiva, ora me entregava novamente às lagrimas. 
Fui seguindo pela estradinha de terra sem saber ao certo pra onde queria ir. Deixei que os pássaros e as plantas criassem uma vontade em mim de continuar andando e apontassem as direções. Vi-me, então, em um campo coberto por nabos forrageiros, com diferentes insetos realizando suas tarefas rotineiras, gozando do dia ensolarado. Observei os bambus enormes e grossos que estavam ao encostarem uns nos outros. Continuei andando pelo campo florido. Atravessei uma parte da plantação de milho e, por fim, adentrei na pequena mata. Lá encontrei um lugar que me convidou a sentar, refletir e escrever. Um local que considerei extremamente interessante. É o último ponto onde é possível ser invisível, pois cerca de três metros adiante há uma rua movimentada. O lugar onde sentei fica embaixo de outro tipo de bambus, então estava forrado de folhas cor de areia, cheias de pequenos desenhos e texturas.
A crescente pressão que eu havia me submetido nos últimos dias fez com que eu encarasse meu limite. Idealizei tanto minha pesquisa que já não conseguia mais alcançá-la. Essa idealização fez com que eu me distanciasse de mim mesma.
A ação de sair de casa foi curativa. Ela me arrancou daquele estado bloqueado e me fez ter vontade de realmente criar e pensar. Voltei para casa com o ânimo renovado e o melhor: ideias! Transformei essa experiência em um vídeo! Amanhã mostrarei para todos!
elias escrevendo

dúvidas

não estou sabendo postar nas outras páginas... ajudem-me. Sabia, mas esqueci.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

comunicado importante

GOSTARIA QUE ESTE BLOG NÃO TIVESSE HIERARQUIAS
MARCOS, ESCREVA POESIAS
AQUI É O LUGAR DE TODOS
GRACIAS AO MÁRCIO E A TALITA
AINDA NÃO LI COM CUIDADO O QUE POSTOU TALITA
ESTOU CHEGANDO EM CASA E CANSADO
TALVEZ DE MADRUGADA PODEREI E LER E COMENTAR
CLAUDIO
   

                                                        tempo é cura, alquimia e imaginação
                                               

Diário tempo - Quinta-feira

No encontramos nos sábados, em meio a tarde, geralmente as 14h30min o dia já andou um pouco, o sol já mudou de lugar o dia caminha para o final a tarde envelhece perto do dia que anoitece, e fora da sala mística, floresce e escurece, o tempo tece a vida...

“Somos artífices do espaço do mundo ao redor do tempo”
Essa frase me fez pensar por muito... tempo...
 Achei belíssima...

 A senti como uma espécie de vento norteador, que levou meu pensamento a regiões como: Existir, fazer, estar inserido em um espaço mundo, e o tempo.

Tá sei que tudo isso é pensável... mas acredito que nós como artistas, pesquisadores,professores,temos uma espécie de responsabilidade como: artífices do espaço do mundo.
Estar inserido em um espaço mundo é onde todos estão e como artífices desse lugar?

A percepção do que está ao nosso redor, e nossa ação dentro dela acaba sendo o que todos tentamos fazer: Existir?
Como disse o Cláudio, todos somos “desenhadores”, também gostei desse termo, mais que desenhistas, cada um de uma forma: caminha, rema, risca, filma...

Hoje pensei no trabalho de cada um, pensando em tempo imaginei o que cada um possa estar fazendo neste momento, será que Marcio esta a frente de algum arvoredo, e Elias usa as mãos para que? Será que Eliane está dentro do ônibus? E a Natália vestiu uma blusa vermelha hoje?e a Carol... olha dentro de algum armário ou está em cima de alguma arvore? Eu neste exato momento estou olhando um resto de luz que invade a janela de meu quarto e toca o espelho e volta a um pequeno vazo de flores mortas que eu fiz, paralelamente, escrevo e penso no “tempo postal”, que será nosso próximo desafio, escrever uma carta para um amigo pensando no tempo e no trabalho.

Marcando o hoje, refletindo e vivenciado o tempo presente, coloco um trecho de um texto da escritora Cearense Ana Miranda, chamado: A permanência das coisas, publicado  em 2003 na revista Caros amigos N° 80:

“As flores que nascem no meu jardim não fazem referencia a flores anteriores ou melhores: elas são pelo que são, existem hoje com Deus, diria um padre. São novos passarinhos que cantam nas arvores? Novas crianças que cruzam sozinhas a praça do Carmo, ou as mesmas crianças de sempre? Novas palavras que escrevemos, ou as mesmas palavras de antigamente?Quando nos esquecemos de alguém passar é o esquecimento? Relendo o que escrevi nesta revista, senti que algo ficou do que eu quis dizer, talvez pouco, Mas do que vivi, tudo ficou em mim. Tudo fica em nós. As palavras eternizam a impermanência, sabemos que o dia passará, mas que o sol vai ressurgir. Tudo é tudo foi, flor de percepção uma flor escura rara. Uma serra desenhada no horizonte guarda a ideia da mais lenta evolução. Depois que subi essa serra entendi alguns seres que se demoram a viver, pensam antes de responder.hesitam antes de decidir, eles tem em seu coração a permanência do instante.


 

Estou testando, onde será postada esta frase?

As intenções deste blog são, a princípio, ingênuas, íntimas, imediatas e penetrantes. A ideia fundamental, ou seja o NiFe, é interagir em grupo, num coletivo por meio da ideia de tempo.
O primeiro passo de um ingênuo é calcar o pé na experiência do tempo de vida, ou seja na vida que cada um leva, na vida como ela é (Nelson Rodrigues).
Na sala de gravura, que poderíamos chamar de Sala do Tempo, tem um relógio preto com apenas um ponteiro vermelho girando em torno do seu núcleo, do seu NiFe, está encostado num espelho. Essa micro instalação é a própria concepção de tempo de um ingênuo, está sobre um armário lindo de madeira crua, nua e sem revestimentos. Nua e crua como a vida, a vida como ela é. É uma ideia que nasceu na "sala do tempo", a mãe do "sabadotempo". Pergunto: Se a sala é a mãe, quem é o pai? Sem encontrar respostas, prossigo na procela. Essa micro instalação é, ao mesmo tempo, um modo de refletir e refratar as ideias acerca da natureza do tempo. O relógio é refratário, não reflete nada e nem conta nada, apenas os segundos. Quando olhamos para ele não conseguimos agrupar os minutos e as horas. Portanto, é um relógio refratário, indiferente, que não se molesta ou ressente de ataques ou ações exteriores, não marca nada além dos segundos. O espelho reflete todos nós que estamos nos lançando nessa busca por ideias de tempo forjadas no NiFe de cada processo de criação que temos desenvolvido até aqui, neste instante, porque o próximo é desconhecido (Clarice Lispector). Nesse processo, pretendemos desenvolver "um vocabulário de conceitos e um corpo de princípios" (J. T. Fraser, o que introduz o livro O que é tempo?) que poderão permitir a todos nós um modo heterogêneo de percebermos o tempo.
Por hoje é só. Desculpe-me os erros e pontuações ortográficas.