O LUGAR MÍTICO DA MEMÓRIA
Cláudia
Cerqueira do Rosario
Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Mestre em Filosofia
Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO
Mestre em Filosofia
Morpheus
- Revista Eletrônica em Ciências Humanas - Ano 01, número 01, 2002
A Teogonia1 de Hesíodo,
que nos narra a origem dos deuses na tradição grega, conta que no princípio surgiu Gaia
(a Terra) de amplos seios, que antes de tudo gera para si própria um consorte, Urano (o
Céu). Juntos produzem numerosa descendência. Entre outros seres fantásticos, a
hierogamia primordial grega gera os Titãs, e entre eles Mnemósine. A palavra grega
prende-se ao verbo mimnéskein, que significa "lembrar-se de". A
titânida Mnemósine, assim, vem a configurar no universo mitológico grego a própria
personificação da Memória.
Mas o mito nos diz mais. Ele nos diz que um dos
Titãs, Cronos, depois de destronar o pai despótico e instaurar um governo ainda mais
despótico, é por sua vez destronado por seu filho Zeus num terrível combate. Para
celebrar, Zeus une-se durante nove noites consecutivas à Mnemósine, e desta união
nascem nove filhas, as cantoras divinas que tinham por função primeira presidir as
diversas formas do pensamento: sabedoria, eloqüência, persuasão, história,
matemática, astronomia. São as nove Musas e a palavra grega que as designa, como
assinala Junito Brandão2 , talvez se relacione a um termo que significaria
"fixar o espírito sobre uma idéia, uma arte". Também à mesma família
etimológica pertence a palavra "música" - o que concerne às Musas - e
"museu" - o templo das Musas, onde elas residem ou onde alguém se adestra nas
diversas artes.
A própria Teogonia se inicia com a
invocação às Musas. O poeta rapsodo, o aedo, através da palavra cantada, guarda a
visão de mundo e a consciência histórica do grupo social em que se gerou, ou seja, a
comunidade pastoril anterior à formação das cidades na Grécia. Como assinala Torrano,
É através da audição deste canto que o homem comum podia romper os estreitos limites de suas possibilidades físicas de movimento e visão, transcender suas fronteiras geográficas e temporais, que de outro modo permaneceriam infranqueáveis, e entrar em contato e contemplar figuras, fatos e mundos que pelo poder do canto se tornam audíveis, visíveis e presentes. O poeta, portanto, tem na palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os bloqueios e distâncias espaciais e temporais, um poder que lhe é conferido pela Memória (Mnemosine) através das palavras cantadas (Musas).3
É o dom de
Mnemósine: conduzindo o côro das Musas, confundindo-se mesmo com elas, preside a
função poética. A Grécia arcaica da mesma forma que diviniza a função psicológica
da Memória, diviniza a possibilidade de suas funções: a poesia é uma espécie de
possessão pelas Musas, de delírio divino que toma o poeta e o transforma no intérprete
de Mnemósine, daquela que tudo sabe, e como nos canta Hesíodo "inspiraram-me um
canto divino para que eu gloreie o futuro e o passado". 4
Mas, como assinala Vernant5, a
atividade do poeta orienta-se preponderantemente para o passado, e mais especificamente
para o "tempo original". A Mnemósine mítica aparece mesmo no início dos
tempos, filha de uma primeira geração divina, presente naquele tempo originário que o
canto de Hesíodo nos apresenta possuído pela inspiração das Musas. Não é, pois, um
passado qualquer que se apresenta no canto do poeta: é a própria possibilidade de ser do
mundo, o próprio momento gerador cujas conseqüências se vêem no mundo presente, neste
mundo visível em que vivemos. O canto das Musas evoca Memória que presentifica níveis
diferentes de ser: nos leva ao momento mesmo em que se constituem Terra e Céu , em que
Zeus combate os Titãs, em que o mundo vem a ser o que é. O canto das Musas é, assim,
revelação e conhecimento do mundo.
Muito nos pode dizer o mito de Mnemósine e das
Musas com relação ao nosso sentido contemporâneo de Memória. Para percebê-lo, podemos
explorar o próprio sentido da palavra "mito" . Como nos assinala Torrano,
My'thos é uma das muitas palavras que a língua de Homero e de Hesíodo dispõe para designar o ato da fala. Nessa riqueza vocabular, correspondente à espantosa exatidão com que o homem na grande época do mito do mundo percebe e se dá conta dos diversos matizes da concretitude e da pluralidade, descobre-se um senso de realidade cujo modo privilegiado de conhecimento é a intuição instantânea do sentido totalizante do ser em seres imediatamente dados em cada caso. 6
O mito é assim, antes de tudo, uma ontofania, ou
seja uma manifestação de ser. Torna presente o próprio fenômeno da existência em sua
plenitude de ser e de sentido, nos coloca diante da própria gênese dos deuses e homens.
O mito é a palavra que revela o ser. Revela-o, note-se bem. Não o conceitua ou esgota,
ou delimita-o a um sentido. O mito é antes, a revelação da própria pluralidade de
sentido, ou do próprio excedente de sentido que o conceito, por sua natureza, não pode
conter. Por isto, a fala do mito não conceitua, mas revela e mostra. E mostra como ser,
como o "sendo" do tempo original, em que constituiu-se o ser do mundo, dos
deuses e dos homens. E o mito, nas sociedades arcaicas, tem o papel essencial de
re-atualizar aquilo que se passou na origem dos tempos, o que torna fundamental seu
conhecimento. Mircea Eliade nos diz :
Não só porque os mitos fornecem uma explicação do Mundo e da própria maneira de estar no mundo, mas sobretudo porque, ao recordar, ao reactualizá-los, ele é capaz de repetir o que os Deuses, os Heróis ou os Antepassados fizeram ab origine. Conhecer os mitos é aprender o segredo da origem das coisas. Por outras palavras, aprende-se não só como as coisas passaram a existir, mas também onde as encontrar e como fazê-las ressurgir quando elas desaparecem. 7
O termo "recordar" é aqui fundamental.
No contexo mítico, recordar significa resgatar um momento originário e torná-lo eterno
em contraposição à nossa experiência ordinária do tempo como algo que passa, que
escoa e que se perde. A recordação, como resgate do tempo, confere desta forma
imortalidade àquilo que ordinariamente estaria perdido de modo irrecuperável sem esta
re-atualização. Traz de novo a presença dos Deuses, os feitos exemplares que forjam os
Heróis e que perseguimos ainda hoje como modelos exemplares, nos coloca novamente em
presença das tradições dos Antepassados que nos tornaram o que somos. Assim, como
dissemos, o papel da memória não é apenas o de simples reconhecimento de conteúdos
passados, mas um efetivo reviver que leva em si todo ou parte deste passado. É o de fazer
aparecer novamente as coisas depois que desaparecem. É graças à faculdade de recordar
que, de algum modo, escapamos da morte que aqui, mais que uma realidade física, deve ser
entendida como a realidade simbólica que cria o antagonismo-chave com relação ao nosso
tema: o esquecimento. O esquecimento é a impermanência, a mortalidade. E não nos dirá
Platão mais tarde que "a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre
e ficar imortal " ? 8
O lugar da Memória é, pois, o lugar da
imortalidade. Em Platão, o conhecimento é compreendido como reminiscência: é o amor do
belo que desperta na alma as lembranças do conhecimento das idéias perfeitas,
obscurecidas pela encarnação. Por sua vez, as formas da atividade amorosa -
procriação, poesia, legislação - garantem a "memória das virtudes" que
conservamos, e garantem "imortal glória e memória" às obras produzidas e
deixadas às gerações, como as obras de Homero e Hesíodo.9 É a atividade
amorosa que gera - filhos ou obras . No caso dos filhos, perpetua-se a memória do sangue,
ou, como podemos dizer hoje em dia, dos genes da espécie humana. No caso das obras,
permanecem a cultura, os valores, as expressões máximas do pensamento e do sentimento
humano coletivos. Em ambos os casos, invisível sob o inexorável transcorrer da
duração, sob as inevitáveis transformações seculares, o passado presentifica-se em um
gesto, em uma reminiscência ou lembrança que eclode na releitura de um mito, na
presença de um objeto que nos evoca um tempo que já não é o nosso mas que contribuiu
de modo efetivo para que sejamos o que somos. Em suma, a memória não está apenas no
passado trazido à tona pela recordação, mas está presente em nossos corpos, em nosso
idioma, no que valorizamos, no que tememos e no que esperamos. A memória nos identifica
como indivíduos e como coletividade. A memória permite mesmo que estas linhas sejam
escritas em seqüência coerente.
Quando pensamos em "passado", temos a
tendência a imaginá-lo como algo pertencente à um tempo longínqüo, datado em
cronologias distantes. O passado se parece com a Grécia Clássica, com o Império Romano,
com o Mundo Medieval, com as inverossímeis pirâmides egípcias, com os vasos etruscos,
com os cacos das civilizações perdidas. Confundimos ordináriamente o passado com o
"não ser mais". Com o arcaico, com o anacrônico, com o superado. Esquecemos -
perigo supremo - que o final desta frase já é passado, que ao acabarmos de pronunciar a
palavra "presente" ela não está mais em ato. Ao pensarmos o ser, tendemos a
conjugá-lo no passado, no presente e no futuro. Pensamos no que foi, no que é e no que
será. Esquecemos o gerúndio; o "sendo" que nos coloca diante da continuidade
que relativiza estes lugares estanques de tempo, e faz com que sejamos, a rigor, forjados
nesta sucessão incontável de instantes, minutos, horas, dias, anos, séculos e milênios
nos quais se teceram a história coletiva da humanidade e mesmo nossos seres individuais.
O que fomos está, pois, contido, conscientemente ou não, naquilo que somos agora .
Dizem os físicos
que toda a matéria do Universo estava contida numa única unidade infinitesimalmente
pequena e infinitamente densa. Houve uma grande explosão, e desde então, o Universo
expande-se a uma velocidade espantosa. Esta explosão marca o início do tempo, pelo menos
tal como o conhecemos. Acreditam os físicos também que esta expansão terá um limite,
depois do qual todo o Universo fará o movimento inverso de retração, o que determinará
seu fim ou, pelo menos, a volta à seu estado inicial. Esta é, sucintamente, a cosmologia
na qual cremos em final do século XX: é a explicação científica de nossa origem em
grande escala.10 Uma das conclusões decorrentes de tal tese é a de
que, já que todo o Universo estava condensado naquele início, de algum modo estavamos
presentes àquele momento inicial. Ou seja: a matéria e/ou energia de que somos
constituídos vem atravessando bilhões de anos, e atravessará outros tantos,
transformando-se e diferenciando-se em infinitas formas, em infinitos seres, desde a
estrela mais brilhante que nossa tecnologia pode observar até folha nova e tenra que
nasce no vaso em nossa sala de estar. Em nossos corpos há algo do começo dos tempos que
perdura, há vestígios do passado mais remoto que o gênio humano foi capaz de conceber.
Em nossos corpos, se estão certos nossos homens da ciência, está presente algo do
início do mundo.
Ora, não teríamos aqui, em nossa cosmologia
tecno-científica e racional, alguns vestígios da visão mítica do mundo? Não há,
pois, nos seres do presente a presentificação de elementos remotos do "tempo
original", dos "princípios" em que se deu o próprio vir a ser do mundo
que agora dissecamos à exaustão nas diversas especialidades daquilo que chamamos
Ciência? E não seria a Ciência, como as Musas do rapsodo grego, também uma filha da
Memória?
As Musas cantam o fazer-se contínuo do mundo, o
fazer-se do pensamento. Cantam mesmo o fazer das artes. O museu, templo das Musas, era
originariamente não apenas sua moradia, mas o lugar de adestramento das artes, onde o
conhecimento adquirido, ao ser lembrado, permite estabelecer um nexo com o conhecimento
novo. Assim, a Memória é não apenas importante para a retenção do conhecimento, mas
fundamental para a elaboração do conhecimento científico, tecnológico e filosófico.
Sem a memória que permita a presentificação do conhecimento não há o passo adiante. A
memória é, assim, de certo modo, mãe da inspiração: pois que é o nosso fazer
contínuo além fabricação do passado que se faz a cada instante ?
A noção de Memória evidentemente
transformou-se muito, desde o tempo em que era vivida como a divindade que presentificava
o passado e gerou as filhas que presidiam a função da arte e da ciência. Foi analisada,
codificada em funções fisiológicas e psíquicas , recebeu diferentes atribuições de
valor e importância dentro das inúmeras teorias do conhecimento, até ser, em nossa
cultura contemporânea, profundamente desvalorizada na obsessão pelo "novo" e
na proliferação do descartável. Reduzimos o objeto da memória ao "não-ser".
Pode-se mesmo, deste ponto de vista, perguntar: qual o interesse para o presente de uma
acepção mítica de Memória?
O mito nos responde: a Memória liga o presente
ao passado, mostra ao ser que existe como se constituiu e no que se fundamenta para vir a
ser. Mostra-nos identidade e diferença, nos aponta a repetição, permite que nos
admiremos diante do novo. Pois não se diz que é "novo" aquilo diante do qual
procuramos referências na memória e não encontramos? E, no instante seguinte àquele em
que é percebido, o novo pertence ao passado e ao domínio da Memória.
Não nos lembramos de tudo, nem pessoal nem
coletivamente. Lembramos aquilo que tem significado, aquilo que é importante. Assim,
vivemos entre a memória e o esquecimento, talvez porque vivamos entre o ser e o não ser
mais. Certamente precisamos de ambos para viver. A memória nos faz lembrar de quem somos
e o que nos faz querer ir a algum lugar. Quanto ao esquecimento, não é aqui lugar dele
agora: é tema para outra reflexão.
NOTAS:
1 HESÍODO. Teogonia, A Origem dos Deuses.
Estudo e tradução de Jaa Torrano, São Paulo: Iluminuras, 1992.
2 BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega. vol.
I, Petrópolis: Ed. Vozes, 1994, p.202-3.
3 TORRANO, Jaa. "O Mundo Como Função de
Musas". In: HESÍODO. Teogonia ...p.16.
4 HESÍODO. Teogonia ... p. 31-32.
5 VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento
entre os Gregos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, Ed. da Universidade de São
Paulo, 1993. p. 73-4.
6 TORRANO, Jaa. O Sentido de Zeus, São
Paulo: Iluminuras, 1996, p. 25.
7 ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Lisboa:
Ed. 70, 1986, p. 19.
8 PLATÃO. O Banquete. Coleção
Pensadores, São Paulo: Ed. Abril, 1972, p. 45.
9 PLATÃO. O Banquete, p. 46.
10 a respeito, ver HAWKING, Stephen. Uma Breve
História do Tempo. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1988.
Que texto maravilhoso, Marcos! Me fez escrever e anotar idéias sobre as reminiscências da paisagem.
ResponderExcluiresse texto me fez pensar na escrita, pelo menos no processo que a escrita acontece comigo, pois busco na memoria e no ``real que ja é memoria pois nao pertence mais ao novo depois de percebido``, como é citado no texto, e como no desenho ou todo ato de criar talvez aconteca, pois no desenho mesmo de observacao, o que fica no papel passou por um processo ou por uma maquina-eu que transforma essa observacao pois ja passei por alguns artistas que influencia-me,mas o que busco no desenho é seguir as linhas do corpo, esse seguir as linhas do corpo é sem pretensao nenhuma?? ainda nao sei...
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