O ECO DE MIL SINOS DE PRATA
O
eco de mil sinos de prata
emudece
ante o labor da
aranha
O
tempo emudece
na
cegueira do ar
na
sua geografia nula
Que
queres de mim
matéria
insensível?
Nas
coisas conhecidas
o
verbo ser
emudece
Ana Hatherly
isso me deixa mt confuso, nao entendo, e talvez isso nw eh o objetivo
ResponderExcluirAo "labor da aranha o tempo emudece", penso no quanto isto se refere a experiência da temporalidade do fazer artístico, artesanal. A labuta trabalhosa, o cuidado com os detalhes, com o fazer primoroso de quem faz a mesma coisa exaustivamente e assim possui o conhecimento desse fazer, a poiesis.
ResponderExcluir"Na cegueira do ar, na sua geografia nula", me falam, tais palavras, sobre as sensações que antecedem o sentido da visão, e quando a visão se instala na experiência, ela já ocorre contaminada pela experiência das sensações. Que geografia se sustenta diante de tantos estímulos sensoriais? A geografia tátil, a audição e o olfato redimencionando os espaços. A construção de uma temporalidade a partir dos sentidos. Daí a poeta a se perguntar, encharcada pelos sentidos, "o que queres de mim matéria insensível"? Matéria insensível? Só se for uma matéria de segunda mão, matéria produzida por cálculos para substituir o contato direto total e irrestrito com todas as matérias disponíveis ao encontro com a vida, essa matéria a qual ela cita, deve ser uma matéria intermediada por instrumentos de precisão, medição, régua, compasso, esquadro, teodolito...a fazer mapas, cartografias, abstrações com o espaço, geometria, trigonometria, realidades fractais, ausência do tempo, a não experiência dos sentidos, "a cegueira do ar", ginástica mental, elocubração sem os sentidos, sensação ausente...matéria ausente, "matéria insensível", plano ideal, concepção platônica.
"Nas coisa conhecidas, o verbo ser emudece", num mundo dado de antemão pela razão, pelas concepções ideais, pela abstração da mente, o ser pensa que existe se pensa, o ser que existe enquanto sente, não mais sente, e se ressente de sentir. Desiste de ser, só pensa. O verbo é ser, o verbo é ação constante de sentir, sente sempre, desde que o verbo fez-se, o ser sente. E sentir produz verbo, que produz sentido e assim produz também palavra, e nesse verbo que se produz no sentir, também faz-se verbo pensamento, inerente ao humano. Se o verbo não sente, não é mais verbo, não é mais ser, só puro pensamento. Esse pensamento, mesmo sem o ser, se reproduz infinitamente, mas esqueceu-se do verbo, o pensamento ausente de verbo, ausente do ser, é só um moto contínuo, regulador de um tempo mecânico, perdido no espaço.